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terça-feira, 25 de setembro de 2018

Oncidium (Brasilidium) forbesii subsp. browickianum

Multiplicando esta raríssima planta.

Descrita nas idas de 1880 permaneceu oficialmente sumida desde então, muita gente do entorno de sua ocorrência a chama até mesmo de "Oncidium gardneri", mas dentre várias diferenças está que o gardneri termina com duas folhas no ápice do pseudobulbo e o browickianum, assim como o forbesii clássico terminam com uma folha apenas.

Quando vi pela primeira vez mantive segredo da minha percepção, não parecia com nada dos demais oncidiuns da Secão Crispa, hoje agrupados, por uma corrente que acredito mais, em gênero Brasilidium.

Adquiri 3 exemplares, tratei de obter sementes tão logo possível deixando a exsicata das flores e potencial descrição de nova espécie para o ano seguinte. Felizmente escolhi multiplicar logo de cara pois após isso descobri que já se trata de uma planta descrita, embora acredite que encerre em si uma série de características muito bem indexadas que justifica até mesmo separar do forbesii para uma espécie a parte... Brasilidium browickianum!

Flores de muita substância, alta durabilidade, com cerca de 6 cm da ponta de uma pétala à outra e de ocorrência mutio restrita, somente na área de uma mineradora de ferro no Quadrilátero Ferrífero, Minas Gerais. Os mais antigos contam que a maior porção da sua área de ocorrência já foi destruída pela mineração.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Habitat e um pouco da ecologia da Hoffmannseggella crispata

A razão pela qual venho aqui escrever algumas palavras sobre esta espécie é porque tenho visto muitas informações equivocadas acerca dela. 

Também, por trabalhar como consultor para empresas do setor de mineração, especialmente nas linhas de bioprospecção, multiplicação in vitro e convencional, e reintrodução de plantas nativas resgatadas de áreas impactadas, é rotineiro observar muito espaço para melhorias no manejo desta e de muitas outras espécies impactadas com a atividade, então compartilho minha experiência e divulgo o meu trabalho.

A princípio a Hoffmannseggella crispata é uma orquídea endêmica de Minas Gerais, mais precisamente da região do Quadrilátero Ferrífero (Fig. 1), e de um trecho mineiro da Serra da Mantiqueira, compreendendo a Serra Negra e o Parque Nacional de Ibitipoca, ambos próximos à cidade de Juiz de Fora/MG (Neto et al., 2009; Neto et al., 2007), no entanto alguns relatos mencionam a espécie nos Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo.

De acordo com a lista da Flora Ameaçada de Minas Gerais está em perigo de extinção (categoria EN,  o que a grosso modo se traduz como "risco de extinção a médio prazo") (Fundação Biodversitas, 2016) e, pela lista do Centro Nacional de Conservação da Flora, está quase ameaçada (categoria NT) (CNFlora, 2016).

Muitos trabalhos citam a espécie como rupícola, tanto em campos rupestres quartzitos (Neto et al., 2009; Neto et al., 2007; Teixeira & Lemos Filho, 2013), quanto em campos rupestres ferruginosos (Teixeira & Lemos Filho, 2013). 

Quanto a isso é comum ver literaturas equivocadas mencionando a espécie como ocorrente em apenas um dos dois tipos de campos rupestres mencionados, tal como Bioma (2016) (que inclusive usa algumas fotos de minha autoria no livro) que em sua página 200 menciona para espécie apenas o ambiente "campo rupestre quartzítico" mas, prestando atenção, em sua página 201 há uma foto, de meia página, de um indivíduo de Hoff. crispata florido, tendo no segundo plano da foto fragmentos de canga, pois o mesmo se encontra naturalmente em um campo rupestre ferruginoso. Sob o ponto de vista prático este tipo de informação, limitada, pode gerar confusão para quem vai trabalhar com a reintrodução de exemplares resgatados desta espécie e, quer saber onde é o melhor ambiente para sua alocação. 

Acho conveniente apontar, ainda, um terceiro ambiente de ocorrência desta espécie, campos graminosos de altitude, onde ocorre como terrícola (planta de solo, ou de substratos relativamente mais espessos). Segundo o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (Santos et al., 2013) o Neossolo Litólico Hístico pode ter menos de 20 cm de profundidade antes do seu contato com a rocha, como no caso das fotos abaixo que tirei na Serra da Moeda, então, a espécie está ocorrendo em um solo bem definido.




Neste tipo de ambiente, campo graminoso de altitude sobre Neossolo Litólito, há uma vegetação composta principalmente de gramíneas nativas, com alguns arbustos esparsos, e as espécies bastante estresse tolerantes quanto ao déficit hídrico e à limitação nutricional que o solo muito raso, e pobre, proporciona. São plantas que crescem pouco e devagar, de modo que a orquídea consegue desenvolver sem ser demasiadamente abafada.

Se este ambiente equilibrado for alterado, por exemplo, com revolvimento e adubação, selecionará outras espécies, principalmente as competidoras, como ervas das famílias Malvaceae e Asteraceae, e gramíneas invasoras como capim-gordura (Melinus minutiflora) e capim-braquiária (Brachiaria decumbens), essas duas últimas espécies africanas e com pesadas restrições de uso pelos órgãos ambientais, dadas às suas características de exercerem dominância suprimindo a flora nativa do sistema, assunto controverso, ideia para futuro post no meu Edafopedos.

A meu ver, um exemplo de aplicação inadequada desta espécie em trabalhos de recuperação ambiental podemos ver em Rezende et al. (2013), que testou diferentes níveis de adubação e de profundidade de um substrato composto por fragmentos de canga. Os autores discutem que a baixa porcentagem de sobrevivência desta espécie é em decorrência de coletas, no entanto, independentemente disso, ao vermos na figura abaixo as ervas que se desenvolvem em profusão, já é plausível inferir subdesenvolvimento (brotos cada vez menores) até a morte dos indivíduos, em outras palavras, este tipo de planta não é deste tipo de ambiente, por razões que estão sendo apresentadas aqui nesta postagem.



Mas, na foto abaixo, temos um bom exemplo de uma reintrodução bem sucedida de exemplares da espécie, respeitando características do substrato que iniba o desenvolvimento de outro grupo de plantas que suprimiriam as Hoff. crispata do ambiente.


A Hoff. crispata, assim como outras Hoffmannseggellas, tem uma plasticidade morfológica muito grande em função do habitat, em uma escala micro, ou seja, num raio de 30 cm pode ter um indivíduo localizado em uma fresta mais profunda, com pseudobulbos delgados alcançando 20 cm de altura, e outro indivíduo sobre a rocha nua, com pseudobulbos arredondados alcançando cerca de 8 cm de altura.

Estando em uma variante de campo rupestre denominado de canga nodular, que como o nome diz consiste em nódulos concessionários, de diâmetro médio de 1 m, intercalados com frestas mais profundas, há muitos arbustos sombreando a Hoff. crispata, e é onde seu porte fica maior, pseudobulbos com até 30 cm de comprimento, delgados, e com uma folha bem plana (foto abaixo). Este tipo de ambiente, a cerca de 1200 m de altitude, dos que conheço é onde as populações da espécie são mais numerosas, no entanto, como tenho visto, é onde há uma menor incidência de indivíduos florescendo e menor incidência de plantas com frutos em desenvolvimento. Acredito que o sombreamento, que faz com que as plantas fiquem mais altas, é excessivo ao ponto de inibir o florescimento (ver ponto de compensação luminosa).

Indivíduos de Hoffmannseggella crispata em seu ambiente mais típico, campo rupestre ferruginoso - canga nodular, a 1200 m de altitude.

Quando em campos graminosos nativos, seus pseudobulbos ficam altos e finos também, no entanto, as folhas ficam mais inclinadas para captarem menos energia luminosa (já discutido em "Epidendrum, fotossíntese e saturação luminosa"). Neste ambiente, que geralmente está uma altitude de 1100 a 1400 m na Serra da Moeda, a quantidade observada de  indivíduos  geralmente é pequena.


Nos campos rupestres ferruginosos canga couraçada, bem como nas lajes de quartzito, os pseudobulbos ficam mais baixos e arredondados (eficiência volumétrica de conservação de água, já abordado em "Cattleya walkeriana Gardner (1843) - anatomia, morfologia, fisiologia, ecologia e cultivo") e as folhas mais inclinadas. As plantas, também, tendem a adquirirem coloração avermelhada devido ao maior acúmulo de antocianina, que é um pigmento (antioxidante) protetor da radiação demasiada (que é oxidante!).
Indivíduos de Hoffmannseggella crispata em canga couraçada na Serra da Moeda, 1550 m de altitude.
Indivíduos de Hoffmannseggella crispata em laje de quartzito na Serra de Ouro Branco: folhas inclinadas, pseudobulbos avermelhados e arredondados.
Os campos rupestres ferruginosos de canga couraçada estão associados a maiores altitudes, 1500 a 1600 m, e as Hoff. crispatas não são tão numerosas quanto na canga nodular. No entanto, creio que devido ao alto input energético, advindo da maior insolação, geralmente é onde encontramos uma maior porcentagem de indivíduos floridos, havendo, também,  sempre muitos frutos em desenvolvimento nas plantas.

Falando em frutos, o tempo de maturação dos mesmos (até que naturalmente se abrem) é maior do que um ano, sendo comum vermos indivíduos em flores ainda portarem os frutos advindos de polinizações de flores do ano passado (foto abaixo), investimento de recursos por parte das plantas que corrobora para uma alta porcentagem de germinação das sementes in vitro.


Tipicamente a floração vai de julho a outubro, sendo o pico em agosto/setembro. Tem um período de floração extenso, de maneira que tem aparecido híbridos naturais com outras espécies de Hoffmannseggellas que compartilham seu habitat.

A meu ver, a melhor maneira de se cultivar a Hoffmannseggella crispata é com vasos de plástico contendo brita 0 de construção (pedrisco) como substrato, sob uma tela de sombreamento de 35 %.


Algumas particularidades notórias da Hoffmannseggella crispata é a disposição compacta das suas flores no ápice do racimo floral, como que se projetando e se expondo melhor acima da vegetação adjacente, característica que não perde em cultivo, ou em qualquer dos tipos de ambientes citados.  Outra característica marcante, no entanto não em todos indivíduos da espécie, é a borda das folhas avermelhadas / arroxeadas. Estas duas características também são vistas na Hoffmannseggella milleri (futuro post!). 


 A espécie tem como sinônimos Cattleya crispata, Laelia crispata, Sophronitis crispata, Laelia flava, dentre outros, a razão de eu utilizar Hoffmannseggella crispata será assunto de um futuro post também.

Abaixo fotos de outras flores que compartilham o habitat e a época de floração com a Hoffmannseggela crispata: 


Referências citadas


Bioma Meio Ambiente Ltda. (2016). Sobre a flora das Reservas Particulares do Patrimônio Natural da Vale – Guia de espécies ameaçadas, raras e endêmicas registradas. Nova Lima/MG. CD-ROM. 411p.Centro Nacional de Conservação da Flora. Disponível em http://cncflora.jbrj.gov.br/portal/pt-br/profile/Hoffmannseggella%20crispata. Acesso em 23/08/2016.
Fundação Biodiversitas. 2016. Revisão das Listas das Espécies da Flora Ameaçadas de Extinção do Estado de Minas Gerais. Disponível em http://www.biodiversitas.org.br/listas-mg/consulta.asp. Acesso em 23/08/2016. 
Neto, L. M., Alves, R. J. V., Barros, F., & Forzza, R. C. (2007). Orchidaceae do Parque Estadual de Ibitipoca, MG, Brasil. Acta bot. bras21(3), 687-696.
Neto, L. M., Matozinhos, C. N., de Abreu, N. L., Valente, A. S. M., Antunes, K., de Souza, F. S., ... & Salimena, F. R. G. (2009). Flora vascular não-arbórea de uma floresta de grota na Serra da Mantiqueira, Zona da Mata de Minas Gerais, Brasil. Biota Neotropica9(4), 149. 
Rezende, L.A.L; Dias, L.E.; Assis, I.R. & Braga, R. (2013). Rehabilitation of ironstones outcrops degraded by iron minning activity in Minas Gerais State – Brazil. In: National Meeting of the American Society of Mining and Reclamation, Laramie, WY Reclamation Across Industries, June 1 – 6, 2013. R.I. Barnhisel (Ed.) Published by ASMR, 3134 Montavesta Rd., Lexington, KY 40502. p.287-294.
Santos, H.G. Dos; Jacomine, P.K.T.; Anjos,  L.H.C. Dos; Oliveira, V.A. De; Lumbreras, J.F.; Coelho, M.R.; Almeida, J.A. De; Cunha, T.J.F.; Oliveira, J.B. (2013). Sistema brasileiro de classificação de solos. 3.ed. rev. e ampl. Brasília: Embrapa. 353p.
Teixeira, W. A., & de Lemos Filho, J. P. (2013). A flórula rupestre do Pico de Itabirito, Minas Gerais, Brasil: lista das plantas vasculares. Boletim de Botânica31(2), 199-230.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Hadrolaelia pumila (Hook.) Chiron & V.P. Castro - Populações remanescentes no Quadrilátero Ferrífero, Minas Gerais

*Transcrevendo um texto que escrevi para o Boletim AOSP nº 15 (http://www.aosp.com.br/).
O Quadrilátero Ferrífero
Situado a centro-sudeste de Minas Gerais, possui uma área de aproximadamente 7.200 km2 (Figura 1).

Figura 1 - Localização geográfica do Quadrilátero Ferrífero a centro-sudoeste de Minas Gerais. (Adaptado de Geopark – Quadrilátero Ferrífero).
Ao norte é delimitado pela Serra do Curral, ao sul pela Serra de Ouro Branco, a leste pela Serra do Caraça e porção sul da Cordilheira do Espinhaço, e a oeste pela Serra da Moeda, de modo que seu território assemelha-se à figura que lhe dá o nome, que é completado pela sua geologia originalmente rica em ferro. Essas serras prolongam-se formando cristas rochosas que atingem altitudes de até 1600 m.
É uma área de tensão entre os biomas Mata Atlântica e Cerrado, sendo que em solos mais profundos em um relevo mais abaciado, ou grotas, e em altitudes que não ultrapassam os 1300 m, encontram-se os capões florestais, com fitofisionomias[1] e espécies vegetais típicas de Mata Atlântica, como jacarandá-da-bahia, perobeira, quaresmeira (arbórea) e braúna. Já em solos rasos, declivosos, pedregosos, tanto em cotas mais elevadas quanto mais baixas, encontram-se os campos graminosos, limpos ou sujos, nesses últimos ocorrem em maiores quantidades plantas arbustivas e arbóreas tortuosas, típicas de cerrado, como o pequizeiro, barbatimão, quaresmeiras arbustivas (“quaresminhas”) e os ipês (Figura 2).




[1] Tipos de vegetação mais específicos.




Figura 2 - Encosta da Serra da Moeda, paisagem típica do Quadrilátero Ferrífero, comuns neblinas e nítida compartimentalização da vegetação em função do terreno. Platô no primeiro plano a cerca de 1100 m de altitude, topo da serra a cerca de 1600.
O clima da região é do tipo subtropical de altitude, com verão chuvoso e inverno seco. A média da temperatura do ar no verão é de 21 ºC e no inverno 16 ºC, a precipitação pluvial anual soma cerca de 1250 mm, e a umidade relativa é sempre alta (maior do que 76 %, mesmo no inverno) (MESSIAS, 2011), o que combinado com a queda abrupta de temperatura a noite proporciona um intenso orvalhar diário.
A transição entre os dois biomas e a diversidade de ambientes conferem à região uma grande diversidade biológica, e elevada taxa de endemismo[1] entre as espécies de plantas e animais que ali ocorrem.
Economicamente o Quadrilátero Ferrífero responde por crucial importância ao Brasil, pois é líder mundial em extração de minerais metálicos, especialmente o ferro, atividade esta que encabeça o PIB nacional. No entanto, essa extração combinada à ocupação urbana, desmatamento para agropecuária extrativista, e turismo pouco criterioso vem resultando em intensa alteração da paisagem.

A Hadrolaelia pumila (Hook.) Chiron & V.P. Castro
A Hadrolaelia pumila (Hook.) Chiron & V.P. Castro (2002) (ou Laelia pumila, Sophronittis pumila, Cattleya pumila) (Figura 3) é uma orquídea tipicamente epífita, e sua ocorrência já foi reportada para os estados de Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais (BARBERO, 2007).
É uma espécie bastante vitimada pela destruição do seu habitat, e o fato de ocorrer em pequenas populações (poucos indivíduos por área) faz dela especialmente vulnerável pela ação de coleta predatória. Segundo a Lista Vermelha da Flora Ameaçada em Minas Gerais é categorizada como em perigo de extinção em um futuro próximo (classe EN) (BIODIVERSITAS, 2007).
A partir indivíduos em cultivo, BARBERO (2007) descreve morfologicamente a Hadrolaelia pumila da seguinte forma:




[1] Espécies que só existem no local.


Figura 3 - Exemplar típico de Hadrolaelia pumila em cultivo.
“Rizoma 1,0-1,3 cm compr. entre pseudobulbos; pseudobulbos delgados, 5,0-7,5 cm compr., homoblásticos. Folhas estreitamente elípticas ou lanceoladas, 9,5-14,5 cm compr., 2,1-3,7 cm larg., ápice agudo ou obtuso, base atenuada, nervura central proeminente. Inflorescência 1- 2-flora, pedúnculo ca. 3,8 cm compr., brácteas florais triangulares, ca. 0,5 cm compr. Flores brancas, róseas ou lilases, com labelo púrpura; pedicelo + ovário 4,7-5,6 cm compr.; sépalas lanceoladas ou oblongo-lanceoladas, ápice agudo, a dorsal 4,5-6,3 cm compr., 1,1-1,9 cm larg., as laterais 4,5-5,9 cm compr., 1,1-1,8 cm larg.; pétalas com âmbito elíptico, ligeiramente assimétricas, com pequena reentrância no 1/3 superior, 4, 9-6,0 cm compr., 2,0-3,7 cm larg., ápice agudo ou obtuso, mucronulado; labelo 3-lobado, unguiculado, com âmbito obovado, 4,7-5,7 cm compr., 3,6-5,0 cm larg., envolvendo o ginostêmio, unguículo 0,2-0,4 cm compr., adnado à base do ginostêmio, lobos laterais arredondados, margem ondulada; lobo central obovado, 0,9-1,2 cm compr., 1,8-2,8 cm larg., ápice fendido, fenda 0,1-0,4 cm de profundidade; ginostêmio curvo, 2,2-2,5 cm compr.”

Nota sobre a ecologia das populações de Hadrolaelia pumila do Quadrilátero Ferrífero
Acompanhando relatos de orquidófilos da região, bem como tendo acesso às informações de relatórios de muitos estudos ambientais, além de uma série de idas a campo em locais de acesso restrito, a espécie se comprovou muito difícil de ser encontrada.
Ao longo do ano de 2014 foram encontradas duas populações, em duas áreas distintas no município de Itabirito/MG (figuras 4 e 5), cada uma dessas populações possuindo um número bastante reduzido de indivíduos.
Figura 4 - Área 1 de ocorrência da Hadrolaelia pumila.

Figura 5 - Área 2 de ocorrência da Hadrolaelia pumila.
Chama a atenção o fato de que as touceiras encontradas tenderem a serem relativamente velhas, grandes, com muitos pseudobulbos, então touceiras novas e seedlings são mais raras de ocorrerem, o que permite inferir uma baixa taxa de germinação das sementes e de sobrevivência dos protocórmios[1], culminando em baixa capacidade de povoamento.
Quando a planta está bem estabelecida a frequência de pseudobulbos folhados é bem maior do que uma touceira caída no chão, ou aderida a uma árvore em decomposição (Figura 6).
É plausível creditar esta pequena quantidade de folhas, diante do total de pseudobulbos, à intensa translocação, ou reaproveitamento, de água e nutrientes como o nitrogênio, fósforo e potássio, outrora acumulados nas folhas mais velhas até que, por limitações recentes de acesso a esses recursos pela planta, ela os envia para as partes em crescimento, o que promove a exaustão e queda das folhas mais velhas.


[1] Termo derivado do grego que significa “primeiro caule”, é o estágio inicial da vida de uma orquídea recém germinada, e é uma fase bastante crítica, pois necessita de condições bastante específicas.

Figura 6 – Touceira de Hadrolaelia pumila aderida a uma árvore em decomposição, menos da metade dos pseudobulbos com folhas.
As plantas de Hadrolaelia pumila tendem a ocuparem posições medianas das árvores, tecnicamente o que seria do fuste alto[1] até copa interna[2], e a abundarem em árvores nas bordas da mata, ou a beira de riachos, onde a descontinuidade florestal permite uma maior entrada de luz (Figura 7). Também foram encontrados indivíduos em uma árvore em ambiente aberto, sob praticamente pleno Sol (Figura 8).
Quando ocorrem em ambiente mais sombreado as folhas tendem a serem mais compridas, disporem-se horizontalmente e planas, e os pseudobulbos são mais altos e de formato mais cilíndricos (Figura 9), ao passo que, quando em ambiente mais ensolarado, as folhas são mais curtas, inclinadas e acanoadas[3], e os pseudobulbos mais curtos e arredondados.



[1] Parte mais elevada do tronco, antes do começo da copa da árvore.
[2] Região dos galhos que formam a copa da árvore que fica mais próxima do tronco.
[3] Dobram-se ao meio no sentido de seu comprimento, assemelhando uma canoa.


Figura 7 - Local de ocorrência típica da Hadrolaelia pumila.

Figura 8 - Indivíduos em ambiente ensolarado.

Em mata mais fechada o microclima é mais úmido, portanto o ar menos dessecante, aliado ao fato de receberem menos luz a auxina[1] tem uma meia vida[2] maior, e por isso as células alongam-se mais, o que reflete em folhas e pseudobulbos mais alongados. Sob pleno sol a auxina é mais intensamente destruída, resultando em diminuição de sua atividade e, por conseguinte, em células e órgãos mais curtos.
As folhas menores em ambiente ensolarado reduz significativamente a perda de água por evapotranspiração[3], e as folhas mais inclinadas reduzem a captação de energia luminosa, potencialmente mais intensa do que os tecidos das folhas suportariam, também o pseudobulbo arredondado é mais eficiente (relação área superficial/volume interno) em acumular água do que os mais cilíndricos.
Na figura 9 está uma das touceiras monitoradas ao longo do último ano, quando encontrada a mesma possuía um fruto originado na floração de 2014, e seguiu sem novas brotações até janeiro de 2015, fato que chama a atenção é a extrema rapidez em que as gemas entumecem, os pseudobulbos se desenvolvem e as flores se abriram após isso, em fevereiro de 2015.



[1] Hormônio vegetal responsável pelo alongamento celular, é destruído por luz (fotodegradação).
[2] Tempo em que a quantidade inicial de um composto se reduz pela metade, e assim sucessivamente, até restar em quantidade pouco significativa. No caso da auxina sob luz o tempo de degradação é maior do que no escuro.
[3] Termo criado pela combinação de transpiração (água saindo do interior do corpo de um ser vivo para o meio externo) e evaporação (água já na superfície da folha que vai para a atmosfera).


Figura 9 – Touceira em 5/08/2014 (a); touceira em 14/01/2014 (b), e; touceira em 20/02/2015 (c).
Em março de 2015 dois novos frutos já se desenvolviam, e o fruto de 2014 se encontrava em estágios finais de maturação (Figura 10).
Figura 10 - Dois novos frutos no ano de 2015, e o fruto de 2015.
É plausível que as flores mais expostas sejam mais facilmente avistadas por agentes polinizadores, potencialmente abelhas e beija-flores, onde num primeiro momento se espera uma maior incidência de frutos, no entanto, nessas condições é, aparentemente, também mais avistada por insetos que delas se alimentam, de maneira que as touceiras em ambientes mais abertos não só não apresentavam vestígios de frutos formados em outras florações, como também na ocasião as flores estavam intensamente danificadas por insetos, e muitas delas já senescentes (Figura 11).
Figura 11 – Ausência de vestígios de frutos e algumas flores comidas e já senescentes (pendúculos amarelados).
Os capões florestais onde ocorrem as Hadrolaelia pumila correspondem a florestas subperinifolias[1], de maneira que preserva maior umidade no ambiente, mesmo ao longo dos meses mais secos, fato importante para que os incêndios anuais, extremamente severos, não ultrapassem os limites dos campos graminosos, na época acentuadamente secos.
Esses habitats orquídea estão sendo mantidos em sigilo e intactos por hora, mas a gama de adversidades possíveis é grande.

Referências citadas
BARBERO, A.P.P. 2007. Flora da Serra do Cipó (Minas Gerais, Brasil): Orchidaceae - Subtribo Laeliinae. São Paulo. 107p. (Dissertação de Mestrado).
BIODIVERSITAS. 2007. Revisão das Listas Vermelhas da Flora e da Fauna Ameaçadas de Extinção de Minas Gerais – Relatório Final, Volume 2. Belo Horizonte. 69p.
GEOPARK. 2015. Geopark – Quadrilátero Ferrífero, disponível em < http://www.geoparkquadrilatero.org/?pg=principal>, acessado em 28 de março de 2015.
MESSIAS, M.C.T.B. 2011. Fatores Ambientais Condicionantes da Diversidade Florística em Campos Rupestres Quartzíticos e Ferruginosos no Quadrilátero Ferrífero, Minas Gerais. Ouro Preto. 119p. (Tese de Doutorado).



[1] A maioria das espécies de árvores não perdem as folhas no outono/inverno.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Pragas e doenças de orquídeas - Questionário

O questionário abaixo diz respeito a uma parte da minha monografia para conclusão do curso de especialização em Proteção de Plantas, na Universidade Federal de Viçosa.

Dentre os objetivos, estão: levantar quais as pragas mais importantes que assolam a orquideocultura brasileira, e o que vem sendo feito no controle das mesmas; propor ajustes horticulturais como medidas de controle de pragas, e; dar o devido retorno de informações à sociedade orquidófila que está contribuindo com este trabalho.

Peço que faça a gentileza de responder, pois é o primeiro levantamento deste tipo de informação na orquidofilia brasileira.

Para auxiliar no questionário segue um guia ilustrado com fotos dos principais sintomas de pragas, doenças, desordens nutricionais, queimaduras de Sol nas folhas, vírus, algas, líquens, líquens e ervas daninhas que atrapalham o desenvolvimento das orquídeas.

A correta interpretação dos sintomas é crucial para o controle eficiente de pragas, que necessariamente se inicia com a identificação do problema, ou seja, sendo pragas, doenças, desordens nutricionais, queimaduras pelo Sol, etc. as medidas de controle são diferenciadas.

sintomas do ataque do inseto tripes

pulgões atacando flores e brotações de orquídeas
sintomas do ataque do percevejo-das-orquídeas (Tentecoris bicolor)

outros insetos que podem atacar diferentes órgãos das orquídeas


algas, líquens e musgos que atrapalham o desenvolvimento das orquídeas

sintomas do ataque do mofo-cinzento nas flores de orquídeas

ervas daninhas infestando vasos de orquídeas

podridões fúngicas em brotos, pseudobulbos, folhas e plantas inteiros em vasos coletivos de orquídeas

sintomas do ataque de caramujos/lesmas nas raízes e flores de orquídeas

sintomas de manchas foliares causadas por diferentes espécies de fungos que atacam as orquídeas

sintomas comprovados de vírus (Phalaenopsis, canto superior à esquerda) e de prováveis infestações de vírus

Sintomas e sinais de ataque de cochonilhas nas folhas e pseudobulbos de orquídeas

Sintomas do ataque de ácaros nas folhas de orquídeas


sintomas de queimadura solar pela incidência direta nas folhas das orquídeas

sintomas visuais de deficiências nutricionais nas orquídeas
PARA ACESSAREM O QUESTIONÁRIO, POR FAVOR CLIQUEM NO LINK:
https://docs.google.com/forms/d/1gh-d_oEKAwWXz99PA-AM4t4AwCETVTG3yqb5fspaHfE/viewform

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Visita técnica em produção comercial de Phalaenopsis

Eventualmente faço visitas técnicas em orquidários pelo país, mais recentemente fiz uma em uma produção de orquídeas, cujo foco principal é  a produção de Phalaenopsis em vasos. Em acordo com o proprietário coloco algumas das observações neste post, tal como fiz há alguns anos atrás neste outro post (http://mvlocatelli.blogspot.com.br/2008/02/visita-tcnica.html).
Sabendo do histórico de aquisição das mudas, do tipo de material genético e dos tratos das plantas fui dando uma olhada, e foi possível notar que alguns sintomas nas Phalaenopsis sugerem que elas vem passando por um moderado, e crônico, estresse hídrico.
Moderado porque apesar da falta d’água ter causado alguns prejuízos no desenvolvimento das plantas, aparentemente o mesmo não tem sido severo o suficiente para causar morte imediata das plantas, e crônico por ser algo que vem sido tolerado pelas plantas há bastante tempo, de modo a resultar em uma série e adaptações morfológicas que atualmente observamos nas plantas.
As Phalaenospsis são orquídeas epífitas monopodiais, ou seja, evoluíram para sobreviver sobre os galhos de árvores, muito embora, por serem monopodiais, não possuam as principais adaptações que permitem epifitismo em muitas espécies de orquídeas, que é a formação de estruturas de armazenamento de água denominadas de pseudobulbos, sendo assim, não acumulam grandes quantidades de água nos seus corpos, e aliado a isso suas folhas largas proporcionam uma grande área de perda de água. 
De modo geral elas ocorrem em galhos baixos das árvores em ambientes de pântanos na Ásia, ou seja, não acumulam água em si porque evoluíram em um ambiente pouco dessecante, com o ar saturado, ou próximo a ser saturado, de água o tempo todo, e as folhas largas são para captarem o máximo possível do mínimo de luz que penetra pelas copas dessas árvores. (Exemplo de habitat de Phal. aqui https://www.youtube.com/watch?v=9F4vTvvfnng).
No orquidário, dentre os sinais de adaptação que observamos para as condições secas se destacam a alta frequência de plantas com seus caules bifurcados, em ocorrência de uma provável morte das gemas apicais primárias devido à desidratação (Foto 1). Para algumas orquídeas monopodiais é comum a bifurcação, no entanto isto não é comum em híbridas de Phalaenopsis, que estão entre as plantas ornamentais mais cultivadas no mundo, e além disso, é tão pouco comum, ou saudável, que o caule principal seque e morra, até que a única parte viva da planta seja o caule adventício brotado na lateral.

Figura 1 - Exemplos de plantas de Phalaenopsis com caules adventícios brotados nos caules principais.
Outros sintomas que reforçam o diagnóstico são a presença de relativas poucas folhas por planta, em média 2 a 3 folhas, que, apesar de túrgidas, são de dimensões muito mais reduzidas e arredondadas (Figura 2) em relação às referências de outras Phalaenopsis compatíveis geneticamente, e da mesma idade, porém em melhores condições de desenvolvimento, e a emissão de muitas raízes exploratórias que saem do vaso em direção às tábuas das bancadas, buscando mais água (Figura 3a).

Figura 2 - Exemplos de plantas de Phalaenopsis com poucas  folhas arredondadas por plantas.
Figura 3 – Raízes das Phalaenopsis saindo do vaso em busca de ambientes mais úmidos (a); raízes de Dendrobium direcionadas para um único sentido, a touceira em cima da bancada (b), e; planta de Phalaenopsis em um vaso maior, com mais folhas e estas sendo de formato mais comprido.
No orquidário há algumas outras espécies de orquídeas que também podem contar muito sobre o cultivo e o ambiente, por exemplo, uma Dendrobium nobile amarrada em um toquinho de madeira, mas com todas as suas raízes crescendo em direção de uma touceira densa de Oncidium em cima da bancada (Figura 3b), o microclima em cima da touceira é bastante úmido em relação ao seu entorno.
Temos também algumas Phalaenopsis, mesmo material genético, cultivadas em substratos e recipientes diferentes, de modo que também nos conta muito sobre elas, como na figura 3c, que aparece uma dessas plantas em um recipiente em um vaso que cabe muito mais substrato que a média que vem sendo utilizada, e por isso, proporcionalmente seu volume interno demora mais para secar após regado, algo que se nota pela planta conservar mais folhas, não estar bifurcada, as folhas tenderem a serem mais compridas, e as raízes ainda não terem saído em busca de ambientes mais úmidos.
Temos também uma Cattleya schilleriana com um novo pseudobulbo relativamente bem desenvolvido para os padrões da espécie, no entanto, devido a folha ter começado a abrir abaixo da linha da bainha que está secando, conclui-se que o broto potencialmente seria maior, e que isto não aconteceu porque faltou a planta absorver e acumular água na quantidade certa para as suas células incharem (tecnicamente hipertrofiarem) (Figura 4). As raízes dessa planta estão sadias, então conseguem absorver toda a água que tem acesso, assim, faltou mesmo o acesso a quantidades maiores de água. Algo sobre regas em orquídeas foi já postado por mim aqui (http://mvlocatelli.blogspot.com.br/2007/05/regas-em-orqudeas.html) e aqui (http://mvlocatelli.blogspot.com.br/2007/05/regas-em-orqudeas-ii_17.html).

Figura 4Cattleya schilleriana demonstrando sinais de ligeiro estresse hídrico.

Apesar das regas diárias em que se submete as orquídeas deste orquidário, e de que essas regas são da melhor maneira possível, ou seja, por meio de mangueira vaso a vaso, o principal substrato utilizada para as Phalaenopsis, uma mistura de brita 0 (ou pedrisco de construção) e argila expandida quebrada, não tem sido bom para armazenar água suficiente para atender a demanda dessas plantas para um desenvolvimento mais vigoroso.
No caso da referida Cattleya schilleriana, a mesma está em um cachepo com substrato de pedaços de casca de peroba, em condições de maior ressecamento ainda, muito provavelmente para o caso das cattleyas este sistema de cultivo das Phal. seria mais satisfatório, sendo as cattleyas orquídeas simpodiais com pseudobulbos notoriamente bem desenvolvidos e eficientes para armazenarem água.
O orquidário é muito ensolarado e ventilado, razão pela que a velocidade de remoção de água do seu interior pode ser considerado alta.

Na figura 5 vemos alguns exemplos de Phal. sob uma outra situação de cultivo, com fornecimento e armazenamento de água próximos ao ideal.

Figura 5Phalaenopsis sem sinais aparentes de estresse hídrico.
Minhas recomendações técnicas para corrigir o problema ficaram para o proprietário, que me pagou pelo serviço, este post é para divulgar o  meu trabalho, e a importância de se ter um engenheiro agrônomo dando assistência em um orquidário comercial, tal como se tem em qualquer outro tipo de atividade agrícola séria.

Marcus V. Locatelli
Orquidófilo há 20 anos
Engenheiro agrônomo
Mestre em Solos e Nutrição de Plantas
Concluindo o Doutorado em Solos e Nutrição de Plantas
Cursando Especialização em Proteção de Plantas