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sexta-feira, 20 de abril de 2018

Sobre a Hoffmannseggella liliputana (Pabst) H.G.Jones

Pequena espécie que ocorre nos campos rupestres ferruginosos e quartizíticos no Quadrilátero Ferrífero, e suas intermediações.

Tem como basinômio (a denominação que a espécie recebeu em sua primeira descrição científica) Laelia liliputana Pabst, e como homotípicos (sinônimos para a mesma planta tipo, ou referência, descrita no basinônimo) Hoffmannseggella liliputana (Pabst) H.G.Jones, Sophronittis liliputana (Pabst) van den Berg & M.W.Chase e Cattleya liliputana (Pabst) van den Berg.

A razão de eu preferir utilizar o nome Hoffmannseggella liliputana, assim como Hoffmannseggella caulescens e Hoffmannseggella crispata será abordada em um post futuro.

Hoffmannseggella liliputna florida no habitat campo rupestre quartizítico.
A espécie foi descrita em 1973, e até então se acreditava tratar da menor espécie deste grupo de plantas, as outrora Laelias rupícolas, e seu nome "liliputana" foi dado em alusão dos liliputeanos, pequeno povo habitante da ilha Liliput do romance satírico As Viagens de Gulliver,  do escritor irlandês Jonathan Swiftescrito em 1726.

Gulliver sendo amarrado pelos liliputeanos.
Sob o Sol pleno o fitômero rizoma + pseudobulbo + folha normalmente não passa de 1,5 cm de comprimento, podendo quase triplicar esta medida quando a planta estiver sombreada, no entanto, nessas condições ela apenas vegeta e não floresce.

Hoffmannseggella liliputana ssob Sol pleno associada a Acianthera teres.
Hoffmannseggella liliputana sombreada.
Em campos rupestres quartzíticos geralmente os indivíduos estão muito bem encaixados nas frestas das  rochas, ou sobre a camada de detritos e fibras nas bases das canelas-de-ema (Velloziaceae) arbustivas. Já em campos rupestres ferruginosos elas também ocorrem nessas condições, e quando a canga tem a superfície mais rugosa e porosa ela se alastra de maneira mais homogênea, e sem restrição, mas em habitats alterados, que passaram a presenciar microclimas mais secos nota-se, não só pelas outras espécies vegetais associadas (fitossociologia), que as Hoffmannseggella liliputana estão definhando, apresentando uma proporção maior de pseudobulbos secos e, quando ainda vivos, desfolhados, refletindo acentuada translocação de recursos, em especial água, das partes velhas para as brotações.

Hoffmannseggella liliputana em campo rupestre quartzítico, alocada em uma pequena fresta.


Hoffmannseggella liliputana em campo rupestre ferruginoso, alastrando-se sobre canga porosa e úmida. Mais pseudobulbos vivos e folhados.
Hoffmannseggella liliputana sobre camada orgânica na base da Vellozia compacta.


Hoffmannseggella liliputana sob Sol pleno em campo rupestre ferruginoso, variante canga porosa, experimentando um microclima mais seco do que quando foi estabelecida, muitos pseudobulbos secos no indivíduo, acentuada translocação de recursos, especialmente água.
São plantas de elevada altitude, das maiores encontradas no Quadrilátero Ferrífero, pessoalmente já encontrei populações na faixa entre 1300 e 1550 m de altitude.

Sua morfologia é bastante plástica de acordo com o ambiente, suas folhas, sempre bastante suculentas, sob Sol pleno tendem à forma largo-elíptica ou elíptica, e quando mais sombreadas assumem forma lanceolada, mas em ambos os casos com o ápice atenuado, bastante suculentas e sempre eretas para diminuírem a captação da intensidade luminosa (algo já comentado aqui http://mvlocatelli.blogspot.com.br/2008/05/epidendrum-fotossntese-e-saturao.html). Sob Sol pleno seus pseudobulbos são esféricos, e vão se alongando para fusiformes conforme se aumenta o sombreamento. A inflorecência comumente uniflora, embora eventualmente sejam vistos duas a três flores no racimo, geralmente com todos os pedicelos saindo abaixo da altura das folhas, deste modo os pedicelos são mais compridos do que o próprio pendúnculo.

Mas as características mais marcantes na liliputana, e que lhe são únicas dentre todas as laelias rupícolas e cattleyas de modo geral, é o fato de suas flores sempre apontarem para cima (a Brasilaelia virens  tem um pouco disso, mas bem menos acentuado), como uma tulipa, e seus frutos serem eretos, devido ao pendúnculo e pedicelo mais resistentes, ecologicamente indicando uma projeção das flores para serem vistas, e dos frutos para disseminarem sementes com o vento, acima das frestas que comumente estão encaixadas. Casos os indivíduos apresentem essas características de maneira mais branda certamente se tratam de híbridos, naturais ou artificiais.

Indivíduo típico de Hoffmannseggella liliputana em cultivo: flores voltadas para cima, pedicelos longos e normalmente inseridos abaixo do ápice das folhas.

Outro indivíduo típico de Hoffmannseggella liliputana em cultivo: flores voltadas para cima, pedicelos longos e normalmente inseridos abaixo do ápice das folhas.
Como podem ter notado pelas fotos eu as cultivo em brita 0, ou pedrisco, em vaso plástico ou em vaso de barro, sob uma sobra de no máximo 50 %, irrigando de uma a 3 vezes por semana, e tenho tido sucesso assim.

Inflorescência de indivíduo típico de Hoffmannseggella liliputana com dois botões, inserção dos dois pedicelos abaixo da altura da folha.

Fruto ereto da Hoffmannseggella liliputana comprimida em uma fresta, projeção do fruto para melhor espalhar as sementes.

Fruto ereto da Hoffmannseggella liliputana, mesmo não tão comprimida em uma fresta.
Indivíduos de Hoffmannseggella cf. regentii (à esquerda) e de Hoffmannseggella liliputana (à direita), evidenciando que o caráter ereto do fruto da liliputana lhe é único, mesmo comparada com outras espécies simpátricas e de tamanhos equivalentes.
Aparentemente não há uma época de florescimento característica para a espécie, tanto em cultivo quanto nos habitats é possível ver indivíduos floridos ao longo do ano todo, o que as torna com um elevado potencial de hibridização com espécies simpátricas (que compartilham a mesma distribuição geográfica) do mesmo grupo, como com a Hoffmannseggella caulescens resultando no híbrido primário Hoffmannseggella ×meyerii K.G.Lacerda, dentre outros novos que estou por descrever. Quando as Hoff. liliputanas e caulescens ocorrem juntas é sempre difícil identificar nas intermediações indivíduos puros, ou seja, aqueles não hibridizados, em qualquer nível devido a retrocruzamentos com uma das duas espécies progenitoras, resultando no que denomina-se enxame de híbridos, com indivíduos com diversos níveis de introgressão (hibridação, retrocruzamento e estabilização de tipos resultantes dos retrocruzamentos pela seleção).

Hoffmannseggella ×meyerii em flor, flores projetadas para cima, herança da Hoff. liliputana.
Hoffmannseggella ×meyerii com pseudobulbos e folhas arredondados, herança da Hoff. liliputana, embora a flor não seja tão projetada para cima.
Hoffmannseggella ×meyerii em cultivo, neste há bastante herança da Hoffmannseggella liliputana, evidente pelo porte diminuto da planta, haste floral curta e flor voltada para cima.
Oficialmente na lista do Livro Vermelho da Flora de Minas Gerais (2007) a Hoffmannseggella liliputana está listada como deficiente de dados (DD) para sua categorização quanto ao nível de ameaça que esta planta corre na natureza. 

É uma espécie de pequena distribuição geográfica, pelo que já vi em exsicatas muitas vezes é determinada erroneamente em levantamentos florísticos, e ocorre, principalmente, em campos rupestres ferruginosos, passíveis de destruição para a extração do minério de ferro a qualquer momento, conforme subir a  demanda do mineral no mercado mundial, então é sim uma espécie ameaçada. Outra ameaça eminente são os incêndios em seu local de ocorrência, atualmente resido em meio deles e posso dizer que a cada ano são mais severos.

Havendo abertura de novas áreas para mineração, dentre as condicionantes ambientais exigidas pelos órgãos ambientais para implantação da atividade há o resgate de flora impactada, no entanto há uma limitação muito grande de técnicos competentes para tal, não só para a correta determinação desta e de outras espécies, mas também para o seu manejo, envolvendo acondicionamento, cultivo e reintrodução, menos ainda para a sua multiplicação.

Particularmente por muitos anos atuei como consultor na Mineradora Vale S.A. nesses segmentos, onde com muito orgulho promovi grandes avanços neste tema, diante de um fracasso histórico desta e de outras empresas. Aliado a isso projetei, implantei e treinei pessoal para o primeiro laboratório de micropropagação de plantas voltados para este fim.

Vitroplantas de Hoffmannseggella liliputana obtidas em laboratório de propagação in vitro.

Tamanduá-mirim em habitat de Hoffmannseggella liliputana na região de Ouro Branco/MG.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Monografia de pragas e doenças em orquidários finalizada - link para baixá-la aqui

Oi pessoal, 

muito obrigado por terem me ajudado respondendo as questões do questionário sobre pragas e doenças nos seus orquidários (mencionado neste post http://mvlocatelli.blogspot.com.br/2013/12/pragas-e-doencas-de-orquideas.html).



As contribuição de vocês foram muito enriquecedoras, as mesmas possibilitaram a visualização de um desenrolar sem fim de cenários e informações variadas, no entanto, neste primeiro momento, me contive em atender as exigências do curso de especialização em proteção de plantas que acabo de concluir.

A partir do endereço de email que muitos deixaram no questionário já enviei a monografia concluída, no entanto, alguns desses emails voltaram, provavelmente por algum erro de digitação do endereço correto, para esses que não receberam, e para os demais que tenham interesse, deixo aqui o link (https://drive.google.com/file/d/0B5I6PzPZfhovWENwTzVzaWFnNkE/edit?usp=sharing) para que acessem a versão final da minha monografia intitulada: PRAGAS, DOENÇAS E SEUS CONTROLES NO CULTIVO DE ORQUÍDEAS – CULTIVO COMERCIAL E CULTIVO AMADOR.

É um texto rápido, com colocações simples e panorâmicas, mas é um norte, não havia algo do tipo para o Brasil.

Por exemplo, há somente uma doença de orquídeas que possui produtos defensivos registrados/permitidos pelo Ministério da Agricultura, o que de certa forma nos coloca desarmados, não de produtos para o uso, que como todo mundo sabe há muitas opções facilmente adquiridas por aí, mas pela limitação de informações quanto ao uso desses, em se tratando de doses, periodicidades e finalidades. Através de estudos deste tipo é que se começa a movimentação para se tapar esses buracos.

A disposição, 

Marcus




sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Pragas e doenças de orquídeas - Questionário

O questionário abaixo diz respeito a uma parte da minha monografia para conclusão do curso de especialização em Proteção de Plantas, na Universidade Federal de Viçosa.

Dentre os objetivos, estão: levantar quais as pragas mais importantes que assolam a orquideocultura brasileira, e o que vem sendo feito no controle das mesmas; propor ajustes horticulturais como medidas de controle de pragas, e; dar o devido retorno de informações à sociedade orquidófila que está contribuindo com este trabalho.

Peço que faça a gentileza de responder, pois é o primeiro levantamento deste tipo de informação na orquidofilia brasileira.

Para auxiliar no questionário segue um guia ilustrado com fotos dos principais sintomas de pragas, doenças, desordens nutricionais, queimaduras de Sol nas folhas, vírus, algas, líquens, líquens e ervas daninhas que atrapalham o desenvolvimento das orquídeas.

A correta interpretação dos sintomas é crucial para o controle eficiente de pragas, que necessariamente se inicia com a identificação do problema, ou seja, sendo pragas, doenças, desordens nutricionais, queimaduras pelo Sol, etc. as medidas de controle são diferenciadas.

sintomas do ataque do inseto tripes

pulgões atacando flores e brotações de orquídeas
sintomas do ataque do percevejo-das-orquídeas (Tentecoris bicolor)

outros insetos que podem atacar diferentes órgãos das orquídeas


algas, líquens e musgos que atrapalham o desenvolvimento das orquídeas

sintomas do ataque do mofo-cinzento nas flores de orquídeas

ervas daninhas infestando vasos de orquídeas

podridões fúngicas em brotos, pseudobulbos, folhas e plantas inteiros em vasos coletivos de orquídeas

sintomas do ataque de caramujos/lesmas nas raízes e flores de orquídeas

sintomas de manchas foliares causadas por diferentes espécies de fungos que atacam as orquídeas

sintomas comprovados de vírus (Phalaenopsis, canto superior à esquerda) e de prováveis infestações de vírus

Sintomas e sinais de ataque de cochonilhas nas folhas e pseudobulbos de orquídeas

Sintomas do ataque de ácaros nas folhas de orquídeas


sintomas de queimadura solar pela incidência direta nas folhas das orquídeas

sintomas visuais de deficiências nutricionais nas orquídeas
PARA ACESSAREM O QUESTIONÁRIO, POR FAVOR CLIQUEM NO LINK:
https://docs.google.com/forms/d/1gh-d_oEKAwWXz99PA-AM4t4AwCETVTG3yqb5fspaHfE/viewform

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Visita técnica em produção comercial de Phalaenopsis

Eventualmente faço visitas técnicas em orquidários pelo país, mais recentemente fiz uma em uma produção de orquídeas, cujo foco principal é  a produção de Phalaenopsis em vasos. Em acordo com o proprietário coloco algumas das observações neste post, tal como fiz há alguns anos atrás neste outro post (http://mvlocatelli.blogspot.com.br/2008/02/visita-tcnica.html).
Sabendo do histórico de aquisição das mudas, do tipo de material genético e dos tratos das plantas fui dando uma olhada, e foi possível notar que alguns sintomas nas Phalaenopsis sugerem que elas vem passando por um moderado, e crônico, estresse hídrico.
Moderado porque apesar da falta d’água ter causado alguns prejuízos no desenvolvimento das plantas, aparentemente o mesmo não tem sido severo o suficiente para causar morte imediata das plantas, e crônico por ser algo que vem sido tolerado pelas plantas há bastante tempo, de modo a resultar em uma série e adaptações morfológicas que atualmente observamos nas plantas.
As Phalaenospsis são orquídeas epífitas monopodiais, ou seja, evoluíram para sobreviver sobre os galhos de árvores, muito embora, por serem monopodiais, não possuam as principais adaptações que permitem epifitismo em muitas espécies de orquídeas, que é a formação de estruturas de armazenamento de água denominadas de pseudobulbos, sendo assim, não acumulam grandes quantidades de água nos seus corpos, e aliado a isso suas folhas largas proporcionam uma grande área de perda de água. 
De modo geral elas ocorrem em galhos baixos das árvores em ambientes de pântanos na Ásia, ou seja, não acumulam água em si porque evoluíram em um ambiente pouco dessecante, com o ar saturado, ou próximo a ser saturado, de água o tempo todo, e as folhas largas são para captarem o máximo possível do mínimo de luz que penetra pelas copas dessas árvores. (Exemplo de habitat de Phal. aqui https://www.youtube.com/watch?v=9F4vTvvfnng).
No orquidário, dentre os sinais de adaptação que observamos para as condições secas se destacam a alta frequência de plantas com seus caules bifurcados, em ocorrência de uma provável morte das gemas apicais primárias devido à desidratação (Foto 1). Para algumas orquídeas monopodiais é comum a bifurcação, no entanto isto não é comum em híbridas de Phalaenopsis, que estão entre as plantas ornamentais mais cultivadas no mundo, e além disso, é tão pouco comum, ou saudável, que o caule principal seque e morra, até que a única parte viva da planta seja o caule adventício brotado na lateral.

Figura 1 - Exemplos de plantas de Phalaenopsis com caules adventícios brotados nos caules principais.
Outros sintomas que reforçam o diagnóstico são a presença de relativas poucas folhas por planta, em média 2 a 3 folhas, que, apesar de túrgidas, são de dimensões muito mais reduzidas e arredondadas (Figura 2) em relação às referências de outras Phalaenopsis compatíveis geneticamente, e da mesma idade, porém em melhores condições de desenvolvimento, e a emissão de muitas raízes exploratórias que saem do vaso em direção às tábuas das bancadas, buscando mais água (Figura 3a).

Figura 2 - Exemplos de plantas de Phalaenopsis com poucas  folhas arredondadas por plantas.
Figura 3 – Raízes das Phalaenopsis saindo do vaso em busca de ambientes mais úmidos (a); raízes de Dendrobium direcionadas para um único sentido, a touceira em cima da bancada (b), e; planta de Phalaenopsis em um vaso maior, com mais folhas e estas sendo de formato mais comprido.
No orquidário há algumas outras espécies de orquídeas que também podem contar muito sobre o cultivo e o ambiente, por exemplo, uma Dendrobium nobile amarrada em um toquinho de madeira, mas com todas as suas raízes crescendo em direção de uma touceira densa de Oncidium em cima da bancada (Figura 3b), o microclima em cima da touceira é bastante úmido em relação ao seu entorno.
Temos também algumas Phalaenopsis, mesmo material genético, cultivadas em substratos e recipientes diferentes, de modo que também nos conta muito sobre elas, como na figura 3c, que aparece uma dessas plantas em um recipiente em um vaso que cabe muito mais substrato que a média que vem sendo utilizada, e por isso, proporcionalmente seu volume interno demora mais para secar após regado, algo que se nota pela planta conservar mais folhas, não estar bifurcada, as folhas tenderem a serem mais compridas, e as raízes ainda não terem saído em busca de ambientes mais úmidos.
Temos também uma Cattleya schilleriana com um novo pseudobulbo relativamente bem desenvolvido para os padrões da espécie, no entanto, devido a folha ter começado a abrir abaixo da linha da bainha que está secando, conclui-se que o broto potencialmente seria maior, e que isto não aconteceu porque faltou a planta absorver e acumular água na quantidade certa para as suas células incharem (tecnicamente hipertrofiarem) (Figura 4). As raízes dessa planta estão sadias, então conseguem absorver toda a água que tem acesso, assim, faltou mesmo o acesso a quantidades maiores de água. Algo sobre regas em orquídeas foi já postado por mim aqui (http://mvlocatelli.blogspot.com.br/2007/05/regas-em-orqudeas.html) e aqui (http://mvlocatelli.blogspot.com.br/2007/05/regas-em-orqudeas-ii_17.html).

Figura 4Cattleya schilleriana demonstrando sinais de ligeiro estresse hídrico.

Apesar das regas diárias em que se submete as orquídeas deste orquidário, e de que essas regas são da melhor maneira possível, ou seja, por meio de mangueira vaso a vaso, o principal substrato utilizada para as Phalaenopsis, uma mistura de brita 0 (ou pedrisco de construção) e argila expandida quebrada, não tem sido bom para armazenar água suficiente para atender a demanda dessas plantas para um desenvolvimento mais vigoroso.
No caso da referida Cattleya schilleriana, a mesma está em um cachepo com substrato de pedaços de casca de peroba, em condições de maior ressecamento ainda, muito provavelmente para o caso das cattleyas este sistema de cultivo das Phal. seria mais satisfatório, sendo as cattleyas orquídeas simpodiais com pseudobulbos notoriamente bem desenvolvidos e eficientes para armazenarem água.
O orquidário é muito ensolarado e ventilado, razão pela que a velocidade de remoção de água do seu interior pode ser considerado alta.

Na figura 5 vemos alguns exemplos de Phal. sob uma outra situação de cultivo, com fornecimento e armazenamento de água próximos ao ideal.

Figura 5Phalaenopsis sem sinais aparentes de estresse hídrico.
Minhas recomendações técnicas para corrigir o problema ficaram para o proprietário, que me pagou pelo serviço, este post é para divulgar o  meu trabalho, e a importância de se ter um engenheiro agrônomo dando assistência em um orquidário comercial, tal como se tem em qualquer outro tipo de atividade agrícola séria.

Marcus V. Locatelli
Orquidófilo há 20 anos
Engenheiro agrônomo
Mestre em Solos e Nutrição de Plantas
Concluindo o Doutorado em Solos e Nutrição de Plantas
Cursando Especialização em Proteção de Plantas

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Olhando uma orquídea e vendo o que ela nos diz sobre ela

Por aí é muito comum ouvir "Ganhei uma orquídea, e agora eu planto ela como?", sempre dá vontade de responder "uai, não sei", mas acabo indo no caminho do "depende, como ela é?". O "não sei" seria sincero também, pois o como plantar dependeria de muita coisa, dependeria de qual orquídea é, especialmente de como ela brota e se ela é epífita, terrícola ou rupícola.

Recentemente quando dou algum curso ou palestra por aí sobre "cultivo de orquídeas" sempre começo mostrando por uns 5 minutos várias fotos de várias espécies em vários contextos de fundo diferentes, e digo "olhem aí a diversidade, não tem como haver uma receita de plantio que atenda todas", e complemento que a ideia do curso ou palestra é fornecer um mínimo de base para que eles mesmo avaliem a situação, e concluam como plantar. Avaliação esta especialmente a partir de se olhar uma planta direito, e sentir as folhas, raízes e pseudobulbos com as mãos, então a princípio o que seria nada muito prático e muito chato e teórico ensina a sentir cada planta com as próprias mãos e a ver o que ela nos diz sobre ela, e fica o paradoxo no sentido de não haver nada mais prático que isso no final das contas.

Mas ainda assim tem gente que reclama que queria um curso mais prático, outros nem piscam, de tanto que prestam atenção, então já que não dá mesmo para agradar todo mundo sigo do meu jeito.

Apresento aqui embaixo um pouco da palestra de cultivo de orquídeas.

O sistema de ramificação de uma espécie de orquídea é uma das características que mais interferem diretamente na sua forma de cultivo. A maioria das espécies em cultivo no Brasil são simpodiais (Cattleya, Oncidium, Maxillaria, etc.), porém, outras bastante representativas são monopodiais (Vanda, Phalaenopsis, etc).
As simpodiais caracterizam-se pelas brotações (novos pseudobulbos) originarem-se nas gemas laterais presentes na base de cada pseudobulbo. Nas monopodiais não existem pseudobulbos, e as brotações surgem como folhas novas no ápice do caule aéreo.


Os pseudobulbos das simpodiais foram as principais adaptações estruturais que permitiram as espécies de orquídeas serem epífitas, são diversos formatos e dimensões, cada um servindo como um recipiente de água diferente, alguns como galões grandes com uma abertura para saída de água (~folha) pequena, assim capazes de armazenarem água por mais tempo, outros como pequenos copos com uma torneira (~folha de novo) grande, de modo que se não fosse o ambiente constantemente úmido ela secaria muito rápido, e entre um extremo e outro infinitos intermediários.


As orquídeas monopodiais possuem um caule aéreo, que é muito fibroso e que não serve como os pseudobulbos para o armazenamento de água, então na natureza necessariamente elas ocorrem em habitats mais úmidos, se forem epífitas ocorrerão necessariamente na base do tronco da árvore, mais próximas do chão, onde é mais úmido em relação ao topo da árvore, então no cultivo demandarão também microclimas mais úmidos.

Agora separando as orquídeas quanto aos seus habitats, se a orquídea for epífita sua ocorrência e necessariamente sua necessidade de cultivo vai depender de qual tipo de epífita é, se tem pseudobulbos avantajados e suculentos, e folhas pequenas e duras (olha a serventia da mão apalpando aí de novo), o que nos diz que ela evoluiu para epifitar o alto de árvores em matas mais secas para pegar mais luz e compensam não precisando de tanta água, ou o oposto, se ela tem folhas grandes e moles e pseudobulbos finos, fazendo com que não tolere microclimas muito dessecantes:









Então, no caso da Cattleya nobilior acima a esquerda inferimos que evoluiu para receber mais luz (mata mais aberta ou mais no alto da árvore), e menos água (muita reserva, evitar substratos que acumulem muita água), ao contrário da Pleurothallis sp. na foto acima a direita, ocorrendo como uma epífita próxima ao chão em uma mata que é mais fechada (mais sombra) e úmida o tempo todo.

O que principalmente difere uma orquídea epífita típica de uma terrícola típica é a combinação de pseudobulbos e velame nas raízes, ambos mais desenvolvidos para o primeiro habitat, repare no destaque em "típicas" porque há algumas excessões que precisam serem explicadas analisando outras variáveis, aí dariam outros posts.

O velame é uma ou mais camadas de células mortas acumuladas ao redor das raízes que funciona como uma esponja, retendo água e nutrientes que escorreriam rapidamente pela superfície em que as plantas encontram-se fixadas, além de servir para proteger as raízes do ressecamento completo em razão delas estarem em contato direto com o ar. 


O slide abaixo mostra esquemas de cortes feitos em raízes de várias espécies de orquídeas, tanto terrícolas típicas e epífitas típicas. Reparem que o velame (camada mais externa e rachurada) é mais espesso nas epífitas no quadro a direita do slide do que nas terrícolas, a esquerda, mesmo havendo grande variação de espessura de velame dentre cada um desses dois grandes grupos, o que pode ser explicado pelo fato de que orquídeas epífitas de matas mais secas ou mais no topo das árvores tem o velame mais espesso do que epífitas de tipos de matas mais úmidas ou que ocorrem mais abaixo, o mesmo para as terrícolas, onde o velame é mais espesso para aquelas que ocorrem em solos ou outros substratos mais secos. A espessura do velame e a proporção dele em relação ao diâmetro todo da raiz a gente sente pegando com a mão e também percebe olhando para ele.


Aqui no slide de baixo uma curiosidade, as epífitas tem mais vascularização por diâmetro das raízes em relação às terrícolas, o que serve para absorver mais rápido o que a esponja (velame) está segurando do lado de fora da raiz:


A partir do exposto sobre as raízes é plausível pensar que na mesma intensidade em que o velame bem desenvolvido confere vantagens para o desenvolvimento das raízes em um ambiente relativamente mais árido, confere também relativa baixa tolerância para as raízes em ambientes constantemente encharcados, vindo a ser essencial dispor de substratos e recipientes que promovam boa drenagem e bom arejamento para aquelas espécies com raízes de velame bem desenvolvido.

Tive um professor em uma disciplina de melhoramento animal ainda na agronomia que dizia "bicho de dupla aptidão não serve para nenhuma das duas direito, para boi ou é leite ou carne, para galinha é ovo ou carne", galinha caipira não produz tanto ovo ou tanta carne como as poedeiras ou os frangos melhorados de granja, ficam no meio, mas são mais vigorosas, e é assim para plantas também, se elas são altamente especializadas em uma determinada condição de estresse não adianta dar mais conforto que ela não vai agradecer produzindo mais, vai entrar em parafuso... Algo comentado aqui já neste post sobre cultivo de orquídeas híbridas vs. cultivo de orquídeas espécies (http://mvlocatelli.blogspot.com/2009/12/cultivar-hibridos-de-orquideas-e-mais.html).

Falando um pouco das terrícolas agora, que como nas epífitas existem muitas particularidades, por exemplo, este slide abaixo uma imagem do Google Earth de um trecho da Serra de Ouro Branco, em Ouro Branco/MG, notem as sinalizações "Cyrtopodium" em cima de uma mancha de solo branco, com a vegetação mais rala porque é areia seca boa parte do ano, e estressante em termos hídricos e nutricionais para muitas plantas, e mesmo para aquelas que conseguem sobreviver nesta condição não conseguem adquirir vigor o suficiente para cobrir a superfície toda do solo, e, finalmente, a poucos metros uma outra seta indicando "Pelexia", e notem ao redor dela, sem solo exposto, uma vegetação densa revestindo o solo todo.


Olhando de perto agora, Cyrtopodium sp. terrícola, com pseudobulbo bem redondinho, e o que não estão vendo aí nesta foto mas que conhece Cyrtopodium sabe que as folhas caem e a planta passa boa parte do ano sem folhas para resistir melhor à seca, e que as raízes são bem branquinhas por causa do velame:


Agora a Pelexia sp.em uma baixada que fica alagada o ano todo, as gramíneas fechando o solo, ela com folhas permanentes e largas (também porque tem bastante água que pode perder pelas folhas a vontade), e também praticamente não tem velame e um pseudobulbo "clássico":


Então para uma terrícola de solo seco uma combinação de vaso e substrato mais drenado, com maior proporção de areia para proporcionar mais poros grandes, e para aquela terrícola de brejo um vaso com substrato com mais húmus ou argila, para reter mais água.

Abaixo mais dois extremos de terícolas, Cyrtopodium sp. em solo muito pedregoso e pobre em nutrientes no Parque Nacional da Serra do Cipó, aqui temos perda de folhas todo ano e pseudobulbos com bastante reserva, e uma Habenária sp. em uma floresta de altitude nos arredores do Pico da Bandeira, vegetando dentro de uma nascente de água, num solo mais fino e mais fértil.






Abaixo um exemplo de uma excessão que mencionei acima, uma terrícola típica que mesmo não possuindo adaptações para ser epífita está ocorrendo nesta situação, mas aqui no caso esta planta ppode ser classificada como holoepífita acidental, teve sorte arranjar um "vaso" formado por um buraco que  está acumulando sedimentos no tronco de uma árvore que caiu e em meio a uma floresta constantemente úmida.