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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Orquídeas em uma pequena cidade amazônica - Monte Dourado/Pará, Vale do Jari

A Amazônia, o afamado bioma de muitos superlativos, dispõe-se a apresentar infinitas surpresas para quem as procura.

Durante o tempo que residi e trabalhei na Amazônia tive a oportunidade de conhecer algumas cidades, povoados e diferentes trechos de vários rios, e em cada fração dessas localidades pude observar peculiaridades de microclimas, solos, rios, pescarias, vegetação e histórico de ocupação e cultura humana.

Em relação às orquídeas também é notório o quanto cada paragem encerra uma particular ocorrência, riqueza[1] e abundância[2] de espécies.
[1] Riqueza de espécies: número de espécies diferentes por unidade de área, que pode ser uma árvore, cidade ou país.
[2] Abundância das espécies: relaciona-se à quantidade de indivíduos de uma dada espécie por unidade de área.


Morei por um ano em Monte Dourado, no norte do Estado do Pará, na beira do Rio Jari que divide os estados do Pará e Amapá (Fig. 1). Uma cidade pequena, com menos de 3000 habitantes, e que tem sua economia girando em torno de algumas poucas e grandes empresas instaladas na região, além do extrativismo de produtos florestais e do pequeno comércio interno.

Figura 1. Localização da cidade de Monte Dourado/PA.
Um dos meus passatempos nos finais de semana era caminhar e fotografar as orquídeas que com o tempo fui mapeando na memória. Registrei brotações e florescimentos, colhi sementes e procurei variedades.

Nos galhos de árvores antigas de Pinus caribea em pleno centro da cidade foi onde observei a maior abundância de Rodriguezia lanceolata que eu encontrei nos meus decursos na região (Fig. 2), fora esse local encontrei indivíduos dispersos. 
Figura 2. Posição dos pinheiros com flores de Rodriguezia lanceolata em contexto urbano.

 As muitas touceiras nesses pinheiros proporcionam um espetacular contraste na época da floração (Fig. 3). As cápsulas de sementes formando-se nos cachos e a falta de interesse das pessoas em coletar essas que consideram “parasitas” deixa uma perspectiva de que este cenário seja duradouro.

Figura 3. Diferentes posições nas copas dos pinheiros representando a abundante floração de Rodriguezia lanceolata.

Em outras espécies de árvores, em especial a mangueira (Mangifera indica) e o flamboyant (Delonix regia), ocorriam outras espécies de orquídeas epífitas, tais como o Epidendrum strobiliferum, Anacheilium aemulum, Scaphyglottis sp., Epidendrum nocturnum, Dimenandra emarginata e Notylia sp. (figuras 5, 6, 7 e 8).


Figura 4. Catasetum sp.,  Epidendrum sp., Rodriguezia bracteata e Campylocentrum sp. ocorrendo em galhos de Pinus caribea.

Figura 5. Epidendrum strobiliferum, Scaphyglottis sp., Anacheilium aemulum em um mesmo galho de mangueira.

Figura 6. Dimenandra emarginata, Anacheilium aemulum e Scaphyglottis sp. ocorrendo em um flamboyant.

Figura 7. Notylia sp.

Figura 8. Flor e seedlings de Epidendrum nocturnum.

 Este é um dos primeiros relatos sobre orquídeas na região do Vale do Jari que já existiu.



domingo, 4 de maio de 2008

Dimorfismo floral e disparo de políneas nas flores da Catasetum fimbriatum

O gênero Catasetum (do grego: cerda/antena para baixo) caracteriza-se pelo dimorfismo sexual que suas flores apresentam em função do ambiente no qual a planta desenvolveu-se até a respectiva floração, embora sejam plantas monóicas (hermafroditas) como todas as outras Orchidaceae.

Tal característica veio a trazer muita confusão entre taxonomistas até o início do século passado, que chegaram a descrever em gêneros distintos as plantas que se apresentavam com flores masculinas (com partes femininas atrofiadas) e as plantas que se apresentavam com flores femininas (com partes masculinas atrofiadas), tamanha a diferença entre elas, vejam as fotos abaixo.

1. Uma flor masculina, por ângulos diferentes:











2. Inflorescência de flores femininas:


DUNGS, F & PABST, G.F.J em seu livro Orchidaceae Brasilienses - Band II, nas páginas 354 e 355 apresentam um chave dicotômica para se chegar ao gênero Catasetum, transcrevendo os caminhos percorridos:

"1 - Plantas de crescimento simpodial;
2a - Políneas nunca lateralmente comprimidas, às vezes há achatamento dorsi-ventral;
3a- Crescimento sempre nitidamente simpodial;
4 - Prefoliação convolutiva ou plicata; folhas com várias nervuras visíveis;
5 - Flores especializadas, masculinas, femininas, às vezes hemafroditas, ou mesmo dos dois sexos na mesma inflorescência e às vezes com flores hemafroditas entre elas;
6 - Coluna com dispositivo de ejeção de políneas ....... Catasetum."

Empiricamente à quem tem tido contato com as Cataseta há mais tempo é sabido que nas plantas expostas a maiores insolações há predominância de surgimento de flores femininas, do contrário, mais à sombra, predominância de flores masculinas, mas o que muitas vezes fica vago são os aspectos quantitativos, ou seja, quanto mais sob insolação ou sob sombra?

Recentemente tomei conhecimento da tese mestrado de Moraes, C. P., 1992, de título Fenologia e anatomia dos órgãos reprodutivos de Catasetum fimbriatum Lindley cultivados sob diferentes intensidades luminosas, defendida na ESALQ/USP, e cujo atalho para download do PDF se encontra aqui.

O autor fez um experime
nto composto de 3 tratamentos, em que tratamento 1 (T1) 15 plantas de Catasetum fimbriatum foram cultivadas sob intensidade luminosa variando de 1300 a 1900 μmol m-2 s-1 de fótons, alta intensidade luminosa, tratamento 2 (T2) 15 plantas de Catasetum fimbriatum foram cultivadas sob intensidade luminosa variando de 400 a 650 μmol m-2 s-1 de fótons, baixa intensidade luminosa e, tratamento 3 (T3) 15 plantas de Catasetum fimbriatum foram mantidas nas árvores sob intensidade luminosa variando de 500 a 800 μmol m-2 s-1de fótons.

Com os indivíduos de T3 (plantas mantidas nas árvores) nos aspectos vegetativos houveram sempre características intermediárias aos extremos T1 (alta intensidade luminosa) e T2 (baixa intensidade luminosa).

T1 com brotação iniciando mais precocemente e sempre em menor número, sendo que o autor explica que, dentre outros fatores, isto é devido ao nível energético acarretado pela maior luminosidade e conseqüente maior temperatura proporcionadas neste tratamento, fazendo com que os processos fisiológicos tenham sido agilizados.

Um aspecto
, cujo autor não aborda, que teorizo estar correlacionado com o menor número de brotações em T1 é o fato de fitormônios, em especial refiro-me às auxinas, possuírem meia-vida menor quando expostas às radiações maiores, sofrendo mais intensamente então fotodegradação (leia-se mais reações oxidantes/degradantes do hormônio pela luz por unidade de tempo). Auxinas estão diretamente envolvidas no crescimento vegetal e, são produzidas intensamente nos ápices das plantas, por exemplo, as gemas laterais dos pseudobulbos das Cataseta, Algo semelhante, segundo outros autores, explica a tortuosidade das árvores e arbustos na vegetação de Cerrado strictu sensu.

Também em T1, as folhas que surgiram mais cedo, caíram cerca de 5 meses antes que em T2.

Embora o autor não tenha tido muito sucesso com seu experimento no que se refere à florações, uma vez que relativamente poucas plantas floresceram, em T3 (plantas nos habitates) de 15 plantas, 7 floresceram sendo que 5 delas apresentando inflorescências com flores masculinas, na discussão e conclusão final o mesmo fez uma abordagem interessante no que se refere à expressão sexual das flores em função dos níveis endógenos (dentro do corpo da planta) do também fitormônio etileno.


Propõe que sob os estresses ambientais como alta intensidade luminosa, alta temperatura e baixa umidade relativa, bem como deficiências hídricas, que acarretando em maior síntese de etileno pela planta, faz com que a diferenciação floral seja direcionada às flores femininas.

Interessante pensar nas razões da natureza aparentemente ter engenhado para que fêmeas predominacem, ainda mais em condições de estresses, em plantas e em animais.

Tive a oportunidade de observar muitas Catasetum fimbriatum (C.Morren) Lindl., Paxton's Fl. Gard. 1: 124 (1850) nos estados de SP, MG e MS, preferencialmente epifitando estipes de Palmaceaes.

Abaixo seguem vídeos de disparos, ou ejeções, das políneas de flores masculinas de Catasetum fimbriatum ao tocar com o dedo suas cerdas.










No primeiro vídeo o disparo por uma flor mantida na planta, onde é possível perceber a rapidez em que o mesmo se dá, bem como ouvir um chiado no ato, no segundo vídeo, o disparo de uma flor recém destacada da planta, reparem na demora na resposta ao ser tocada e, embora a qualidade do vídeo não tenha ajudado, o chiado com o disparo desta é mais baixo do que na primeira.

Essa diferença vem a ser explicada pelo fato da flor destacada não mais dispor da continuidade hídrica com a planta, diminuindo assim a potência de disparo das políneas, o que daria um estudo interessante observar a perda de potência no disparo das políneas em função da perda de turgor ao longo do tempo da flor destacada do resto planta, somando a isso diferentes métodos e técnicas de conservação da flor...

Abaixo fotos do resultado do disparo, as políneas ficam bastante aderidas em uma superfície, no caso minha unha, mas na natureza normalmente seria o dorso de uma abelha da tribo Euglossini.








quarta-feira, 30 de abril de 2008

Um habitat de orquídeas no interior de SP- 2

Dando seqüência...

Uma coisa na qual havia esquecido de comentar no post anterior, a região está inserida no Domínio da Mata Atlântica, com algumas manchas de Cerrado que tornam-se mais freqüentes a medida que se vai para o oeste.

Somada à Cattleya loddigesii existem ao menos outras 15 espécies de orquídeas que pude encontrar, dentre elas a Microlaelia lundii (Rchb.f. & Warm.) Chiron & V.P.Castro, Richardiana 2: 11 (2002), que parece não necessitarem de ambientes muito específicos (vejam a variedade caerulea desta clicando aqui):






























































Aqui, as touceiras de Microlaelia lundii sempre apresentam muitas cápsulas de sementes, e é possível observar seedlings desta por toda parte.









Também a Lophiaris pumila (Lindl.) Braem, Schlechteriana 4: 21 (1993), bastante generalista quanto aos tipos de ambientes (vejam flores desta também clicando aqui):












A Leptotes unicolor Barb.Rodr., Gen. Spec. Orchid. 1: 74 (1877), sempre próximas às Cattleya loddigesii:














A Capanemia micromera Barb.Rodr., Gen. Spec. Orchid. 1: 138 (1877) (vejam flores desta também clicando aqui), também sempre próximas às Cattleya loddigesii:






















Uma espécie de Campylocentrum, a qual acredito tratar-se da Campylocentrum grisebachii Cogn., Fl. Bras. 3(6): 522 (1906), por toda parte, acompanhando as Microlaelia lundii:

























A Rodriguezia decora (Lem.) Rchb.f., Bot. Zeitung (Berlin) 10: 771 (1852):



Além de outras espécies de orquídeas do gênero Pleurothallis, uma do gênero Encyclia, uma do gênero Catasetum, provavelmente o Catasetum fimbriatum (C.Morren) Lindl., Paxton's Fl. Gard. 1: 124 (1850), a espécie Pleurobotryum atropurpureum Barb.Rodr., Gen. Spec. Orchid. 1: 20 (1877) (vejam flores desta também clicando aqui), relatos também de ocorrência da Cattleya walkeriana Gardner, London J. Bot. 2: 662 (1843), o que acredito ser perfeitamente possível, uma vez que existem pequenas manchas de vegetação de Cerrado.































Continua...