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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Hadrolaelia pumila (Hook.) Chiron & V.P. Castro - Populações remanescentes no Quadrilátero Ferrífero, Minas Gerais

*Transcrevendo um texto que escrevi para o Boletim AOSP nº 15 (http://www.aosp.com.br/).
O Quadrilátero Ferrífero
Situado a centro-sudeste de Minas Gerais, possui uma área de aproximadamente 7.200 km2 (Figura 1).

Figura 1 - Localização geográfica do Quadrilátero Ferrífero a centro-sudoeste de Minas Gerais. (Adaptado de Geopark – Quadrilátero Ferrífero).
Ao norte é delimitado pela Serra do Curral, ao sul pela Serra de Ouro Branco, a leste pela Serra do Caraça e porção sul da Cordilheira do Espinhaço, e a oeste pela Serra da Moeda, de modo que seu território assemelha-se à figura que lhe dá o nome, que é completado pela sua geologia originalmente rica em ferro. Essas serras prolongam-se formando cristas rochosas que atingem altitudes de até 1600 m.
É uma área de tensão entre os biomas Mata Atlântica e Cerrado, sendo que em solos mais profundos em um relevo mais abaciado, ou grotas, e em altitudes que não ultrapassam os 1300 m, encontram-se os capões florestais, com fitofisionomias[1] e espécies vegetais típicas de Mata Atlântica, como jacarandá-da-bahia, perobeira, quaresmeira (arbórea) e braúna. Já em solos rasos, declivosos, pedregosos, tanto em cotas mais elevadas quanto mais baixas, encontram-se os campos graminosos, limpos ou sujos, nesses últimos ocorrem em maiores quantidades plantas arbustivas e arbóreas tortuosas, típicas de cerrado, como o pequizeiro, barbatimão, quaresmeiras arbustivas (“quaresminhas”) e os ipês (Figura 2).




[1] Tipos de vegetação mais específicos.




Figura 2 - Encosta da Serra da Moeda, paisagem típica do Quadrilátero Ferrífero, comuns neblinas e nítida compartimentalização da vegetação em função do terreno. Platô no primeiro plano a cerca de 1100 m de altitude, topo da serra a cerca de 1600.
O clima da região é do tipo subtropical de altitude, com verão chuvoso e inverno seco. A média da temperatura do ar no verão é de 21 ºC e no inverno 16 ºC, a precipitação pluvial anual soma cerca de 1250 mm, e a umidade relativa é sempre alta (maior do que 76 %, mesmo no inverno) (MESSIAS, 2011), o que combinado com a queda abrupta de temperatura a noite proporciona um intenso orvalhar diário.
A transição entre os dois biomas e a diversidade de ambientes conferem à região uma grande diversidade biológica, e elevada taxa de endemismo[1] entre as espécies de plantas e animais que ali ocorrem.
Economicamente o Quadrilátero Ferrífero responde por crucial importância ao Brasil, pois é líder mundial em extração de minerais metálicos, especialmente o ferro, atividade esta que encabeça o PIB nacional. No entanto, essa extração combinada à ocupação urbana, desmatamento para agropecuária extrativista, e turismo pouco criterioso vem resultando em intensa alteração da paisagem.

A Hadrolaelia pumila (Hook.) Chiron & V.P. Castro
A Hadrolaelia pumila (Hook.) Chiron & V.P. Castro (2002) (ou Laelia pumila, Sophronittis pumila, Cattleya pumila) (Figura 3) é uma orquídea tipicamente epífita, e sua ocorrência já foi reportada para os estados de Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais (BARBERO, 2007).
É uma espécie bastante vitimada pela destruição do seu habitat, e o fato de ocorrer em pequenas populações (poucos indivíduos por área) faz dela especialmente vulnerável pela ação de coleta predatória. Segundo a Lista Vermelha da Flora Ameaçada em Minas Gerais é categorizada como em perigo de extinção em um futuro próximo (classe EN) (BIODIVERSITAS, 2007).
A partir indivíduos em cultivo, BARBERO (2007) descreve morfologicamente a Hadrolaelia pumila da seguinte forma:




[1] Espécies que só existem no local.


Figura 3 - Exemplar típico de Hadrolaelia pumila em cultivo.
“Rizoma 1,0-1,3 cm compr. entre pseudobulbos; pseudobulbos delgados, 5,0-7,5 cm compr., homoblásticos. Folhas estreitamente elípticas ou lanceoladas, 9,5-14,5 cm compr., 2,1-3,7 cm larg., ápice agudo ou obtuso, base atenuada, nervura central proeminente. Inflorescência 1- 2-flora, pedúnculo ca. 3,8 cm compr., brácteas florais triangulares, ca. 0,5 cm compr. Flores brancas, róseas ou lilases, com labelo púrpura; pedicelo + ovário 4,7-5,6 cm compr.; sépalas lanceoladas ou oblongo-lanceoladas, ápice agudo, a dorsal 4,5-6,3 cm compr., 1,1-1,9 cm larg., as laterais 4,5-5,9 cm compr., 1,1-1,8 cm larg.; pétalas com âmbito elíptico, ligeiramente assimétricas, com pequena reentrância no 1/3 superior, 4, 9-6,0 cm compr., 2,0-3,7 cm larg., ápice agudo ou obtuso, mucronulado; labelo 3-lobado, unguiculado, com âmbito obovado, 4,7-5,7 cm compr., 3,6-5,0 cm larg., envolvendo o ginostêmio, unguículo 0,2-0,4 cm compr., adnado à base do ginostêmio, lobos laterais arredondados, margem ondulada; lobo central obovado, 0,9-1,2 cm compr., 1,8-2,8 cm larg., ápice fendido, fenda 0,1-0,4 cm de profundidade; ginostêmio curvo, 2,2-2,5 cm compr.”

Nota sobre a ecologia das populações de Hadrolaelia pumila do Quadrilátero Ferrífero
Acompanhando relatos de orquidófilos da região, bem como tendo acesso às informações de relatórios de muitos estudos ambientais, além de uma série de idas a campo em locais de acesso restrito, a espécie se comprovou muito difícil de ser encontrada.
Ao longo do ano de 2014 foram encontradas duas populações, em duas áreas distintas no município de Itabirito/MG (figuras 4 e 5), cada uma dessas populações possuindo um número bastante reduzido de indivíduos.
Figura 4 - Área 1 de ocorrência da Hadrolaelia pumila.

Figura 5 - Área 2 de ocorrência da Hadrolaelia pumila.
Chama a atenção o fato de que as touceiras encontradas tenderem a serem relativamente velhas, grandes, com muitos pseudobulbos, então touceiras novas e seedlings são mais raras de ocorrerem, o que permite inferir uma baixa taxa de germinação das sementes e de sobrevivência dos protocórmios[1], culminando em baixa capacidade de povoamento.
Quando a planta está bem estabelecida a frequência de pseudobulbos folhados é bem maior do que uma touceira caída no chão, ou aderida a uma árvore em decomposição (Figura 6).
É plausível creditar esta pequena quantidade de folhas, diante do total de pseudobulbos, à intensa translocação, ou reaproveitamento, de água e nutrientes como o nitrogênio, fósforo e potássio, outrora acumulados nas folhas mais velhas até que, por limitações recentes de acesso a esses recursos pela planta, ela os envia para as partes em crescimento, o que promove a exaustão e queda das folhas mais velhas.


[1] Termo derivado do grego que significa “primeiro caule”, é o estágio inicial da vida de uma orquídea recém germinada, e é uma fase bastante crítica, pois necessita de condições bastante específicas.

Figura 6 – Touceira de Hadrolaelia pumila aderida a uma árvore em decomposição, menos da metade dos pseudobulbos com folhas.
As plantas de Hadrolaelia pumila tendem a ocuparem posições medianas das árvores, tecnicamente o que seria do fuste alto[1] até copa interna[2], e a abundarem em árvores nas bordas da mata, ou a beira de riachos, onde a descontinuidade florestal permite uma maior entrada de luz (Figura 7). Também foram encontrados indivíduos em uma árvore em ambiente aberto, sob praticamente pleno Sol (Figura 8).
Quando ocorrem em ambiente mais sombreado as folhas tendem a serem mais compridas, disporem-se horizontalmente e planas, e os pseudobulbos são mais altos e de formato mais cilíndricos (Figura 9), ao passo que, quando em ambiente mais ensolarado, as folhas são mais curtas, inclinadas e acanoadas[3], e os pseudobulbos mais curtos e arredondados.



[1] Parte mais elevada do tronco, antes do começo da copa da árvore.
[2] Região dos galhos que formam a copa da árvore que fica mais próxima do tronco.
[3] Dobram-se ao meio no sentido de seu comprimento, assemelhando uma canoa.


Figura 7 - Local de ocorrência típica da Hadrolaelia pumila.

Figura 8 - Indivíduos em ambiente ensolarado.

Em mata mais fechada o microclima é mais úmido, portanto o ar menos dessecante, aliado ao fato de receberem menos luz a auxina[1] tem uma meia vida[2] maior, e por isso as células alongam-se mais, o que reflete em folhas e pseudobulbos mais alongados. Sob pleno sol a auxina é mais intensamente destruída, resultando em diminuição de sua atividade e, por conseguinte, em células e órgãos mais curtos.
As folhas menores em ambiente ensolarado reduz significativamente a perda de água por evapotranspiração[3], e as folhas mais inclinadas reduzem a captação de energia luminosa, potencialmente mais intensa do que os tecidos das folhas suportariam, também o pseudobulbo arredondado é mais eficiente (relação área superficial/volume interno) em acumular água do que os mais cilíndricos.
Na figura 9 está uma das touceiras monitoradas ao longo do último ano, quando encontrada a mesma possuía um fruto originado na floração de 2014, e seguiu sem novas brotações até janeiro de 2015, fato que chama a atenção é a extrema rapidez em que as gemas entumecem, os pseudobulbos se desenvolvem e as flores se abriram após isso, em fevereiro de 2015.



[1] Hormônio vegetal responsável pelo alongamento celular, é destruído por luz (fotodegradação).
[2] Tempo em que a quantidade inicial de um composto se reduz pela metade, e assim sucessivamente, até restar em quantidade pouco significativa. No caso da auxina sob luz o tempo de degradação é maior do que no escuro.
[3] Termo criado pela combinação de transpiração (água saindo do interior do corpo de um ser vivo para o meio externo) e evaporação (água já na superfície da folha que vai para a atmosfera).


Figura 9 – Touceira em 5/08/2014 (a); touceira em 14/01/2014 (b), e; touceira em 20/02/2015 (c).
Em março de 2015 dois novos frutos já se desenvolviam, e o fruto de 2014 se encontrava em estágios finais de maturação (Figura 10).
Figura 10 - Dois novos frutos no ano de 2015, e o fruto de 2015.
É plausível que as flores mais expostas sejam mais facilmente avistadas por agentes polinizadores, potencialmente abelhas e beija-flores, onde num primeiro momento se espera uma maior incidência de frutos, no entanto, nessas condições é, aparentemente, também mais avistada por insetos que delas se alimentam, de maneira que as touceiras em ambientes mais abertos não só não apresentavam vestígios de frutos formados em outras florações, como também na ocasião as flores estavam intensamente danificadas por insetos, e muitas delas já senescentes (Figura 11).
Figura 11 – Ausência de vestígios de frutos e algumas flores comidas e já senescentes (pendúculos amarelados).
Os capões florestais onde ocorrem as Hadrolaelia pumila correspondem a florestas subperinifolias[1], de maneira que preserva maior umidade no ambiente, mesmo ao longo dos meses mais secos, fato importante para que os incêndios anuais, extremamente severos, não ultrapassem os limites dos campos graminosos, na época acentuadamente secos.
Esses habitats orquídea estão sendo mantidos em sigilo e intactos por hora, mas a gama de adversidades possíveis é grande.

Referências citadas
BARBERO, A.P.P. 2007. Flora da Serra do Cipó (Minas Gerais, Brasil): Orchidaceae - Subtribo Laeliinae. São Paulo. 107p. (Dissertação de Mestrado).
BIODIVERSITAS. 2007. Revisão das Listas Vermelhas da Flora e da Fauna Ameaçadas de Extinção de Minas Gerais – Relatório Final, Volume 2. Belo Horizonte. 69p.
GEOPARK. 2015. Geopark – Quadrilátero Ferrífero, disponível em < http://www.geoparkquadrilatero.org/?pg=principal>, acessado em 28 de março de 2015.
MESSIAS, M.C.T.B. 2011. Fatores Ambientais Condicionantes da Diversidade Florística em Campos Rupestres Quartzíticos e Ferruginosos no Quadrilátero Ferrífero, Minas Gerais. Ouro Preto. 119p. (Tese de Doutorado).



[1] A maioria das espécies de árvores não perdem as folhas no outono/inverno.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Habitats de orquídeas no Quadrilátero Ferrífero 2/2

Agora falando de orquídeas...

Fico um pouco com receio de colocar aqui algumas informações, porque algumas delas são, me atrevo a dizer, poderosas demais. Então por aqui vou colocar uma breve introdução do que seria o tipo de conteúdo de um dos livros sobre orquídeas que venho tentando concluir com um amigo, o Elton Valente do Geófagos (o livro "PAISAGENS, HABITATS E ECOLOGIA DE ORQUÍDEAS"), fruto de nossas andanças por aí, juntando revisão de literatura e nossas interpretações e opiniões sobre alguns fenômenos, quando a revisão nos deixa na mão, especialmente envolvendo padrões de dispersões das Orchidaceaes.

As cristas de quartizitos tendem a se orientarem na direção Norte - Sul, pelo contato entre os continentes africano e sul-americano ter sido também nesta direção, e consequentemente os soerguimentos dos planaltos, onde ficam as cristas, em decorrência disso no interior dos mesmos também. 

Esta disposição já é suficiente para propiciar dois grandes nichos ecológicos distintos, as faces Leste e a Oeste, por menor que seja a crista, como é o caso desta que é tema desses dois posts, uma face que recebe mais energia luminosa (a Oeste) do que a outra ao longo do dia. Acrecenta-se a isso o alto coeficiente de calor específico do silício (um dos elementos principais dos quartizitos) fazendo com que a temperatura de uma das faces se conserve mais alta em relação a outra até mais para o avançar da noite.

Na ocasião acabei por andar mais pela face Leste, e nela pude observar algumas Bulbophyllum sp., 










Epidendrum que acredito ser o Epidendrum secundum











e uma curiosa Pleurothallis (talvez esta nem pertença mais a este gênero) que aparece nas fotos abaixo:











Indo para a face Oeste, no meio da crista encontram-se o que acredito tratar-se de Coppensia blanchetii













e uma outra "rupestre" cujo o gênero ainda não desconfio:


Chegando na face Oeste da crista em pouco tempo vi muito mais biodiversidade e quantidade do que no muito tempo que andei pela face Leste, como a Acianthera teres





















uma outra Epidendrum





















e as laelias "rupestres" (Hoffmannseggella sp.), parecem-me serem da espécie Laelia crispilabia.












O hábito de classificar remonta desde os princípios da humanidade como uma forma de simplificar a maneira com que uma gama de informações é transmitida, então é crucial que as informações sejam verídicas e eficientes, ao ponto de muitas vezes atitudes dependerem dela, por isto insisto em manter as aspas para me referir a espécies de plantas "rupestres" porque é mais do que claro para mim que elas não vegetam simplesmente em cima das rochas, mas sim nas suas fendas onde há ao menos  1 ou 2 cm de solo, mas o ambiente em si, em uma escala macro, talvez até caiba a denominação de campo rupestre, penso eu. 

São detalhes como 1 ou 2 cm de profundidade de solo que fazem toda a diferença, não simplesmente a existência de rochas, que permitem ou não a ocorrência de orquídeas nesses geoambientes. Se a profundidade do solo aumentar a coisa começa a ficar mais propícia para espécies de desenvolvimento mais agressivo que as orquídeas, com oas  gramíneas, de modo que as orquídeas não se estabeleçem.

 Então os nichos ecológicos das orquídeas nos geoambientes de campos rupestres são no geral os pontos deles em que o recurso ecológico solo apresenta-se com uma pequena profundidade, e por enquanto na falta de outra opção prefiro me referir a elas como orquídeas de solos rasos de campos rupestres.

Adiantei algumas coisas do livro aqui, mas deixando claro que no mesmo haverá maior profundidade de conteúdo, e o apresentado aqui abordando posicionamento em relação ao caminhamento do Sol, altitude, temperatura e solo serviram para esta situação e não é geral, e que para o entendimento do padrão de dispersão dessas orquídeas é necessário cruzar outras informações, por exemplo, as pertinentes ao fator antrópico, pois neste caso, do lado Leste da crista havia uma rampa de acúmulo (solo ligeiramente mais preofundo) com um campo graminoso, por isso era a face mais susceptível ao fogo e talvez ainda tenha sido pastagem outrora, enquanto ao Oeste predominava escarpas de difícil acesso e próximo uma floresta ombrófila (menos susceptível ao fogo!), aí junta-se a extrema dificuldade das sementes destas orquídeas germinarem (Serra do Cipó III)...


No caminho algumas Catasetum sp. nas palmeiras à beira da estrada:













terça-feira, 7 de abril de 2009

Habitats de orquídeas no Quadrilátero Ferrífero 1/2

Uma floresta tropical, não sei para onde olhar...”, escreveu Charles Darwin em seu diário relatando a sensação que teve em seu primeiro contato com uma floresta tropical, o que aconteceu durante uma parada do Beagle no litoral do Estado da Bahia em fevereiro de 1832. Estava ele pisando em um dos maiores hots spots de biodiversidade do planeta, uma fraçao do Bioma Mata Atlântica no Sul da Bahia.

Fico pensando: “E se Darwin tivesse conhecido um geoambiente de campo rupestre do Sudeste do Brasil, o que ele observaria e escreveria a respeito?!”.


De uma maneira geral todos os habitats de orquídeas que conheci tinham algo de interessante, novo, curioso e bonito, mas meu sentimento em um campo rupestre é diferente, não sei explicar, é mais do que admiração e curiosidade. Neles a sensação de se ter viajado ao passado é constante, porque suas paisagens estão entre as mais antigas do Brasil, ou seja, que menos se alteraram nos últimos 70 milhões de anos, mas por outro lado, algo de perspectiva de futuro, embora acompanhada da preocupação da possibilidade de não haver este privilégio.

A sensação de não se “saber para onde olhar” é permanente diante de muitos paradoxos nesta paisagem cinza misturando-se na maior parte do ano com o pardo, e que esconde muitas cores berrantes que estranhamente só ficam contrastantes depois de certa atenção, por exemplo, fixa-se o olhar no cinza e aparece um carnaval de cores de liquens, e fixa-se o olhar no pardo da vegetação que está a 1 m de distância e aparecem flores de todas as cores que se pode imaginar, e o problema é este, em pouco tempo aprendemos que é só prestar atenção que as coisas aparecem, e há muito o que ver e não dá tempo para dar a devida atenção a tudo.

Altitude maior que 1.000 m, umidade relativa alta, sensação térmica agradável, porém desidratação e queimadura solar nos braços e pescoço no outro dia incomodando, plantas disputando intensamente cada fresta de quartizito que tenha 1 cm a mais de profundidade de solo, e a briga fica ainda mais feia na medida que o solo se torna mais profundo acompanhando a rede de drenagem do terreno, um cupinzeiro escavado a partir do topo (será que terei a sorte de ver algum tamanduá?), calangos correndo em cima das rochas (cadê a cascavel ou jararaca?), beija-flores curiosos nos investigando, abelhas selvagens sem ferrão lambendo o suor dos nossos braços, em volta muitas flores melíferas (se aparecerem abelhas africanizadas para onde eu corro? – tive uma experiência desagradável certa ocasião e hoje prefiro topar com uma jararaca)...

O grau de endemismo é muito grande, e as espécies tendem a se distribuírem em ilhas, o que as torna ainda mais vulneráveis.

Nos campos rupestres as coisas são hostis, o potencial genético dos organismos em sobreviver compensando certos fenômenos ambientais é determinante, e talvez seja nesses genes que estejam o futuro da agricultura, pois há plantas que vivem com quase nada de nutriente. Qualquer grau de inclinação da folha de uma planta (post clicando aqui), tamanho de fresta na rocha e posição em relação ao Sol faz muita diferença.

Lugar de alta ocorrência de fogo selecionando espécies altamente especializadas em se protegerem, como as Veloziaceae com fibras bastante silicosas e o barbatimão com uma camada isolante bastante espessa de cortiça.

A geologia predominante no Quadrilátero Ferrífero é composta pelas rochas quartzitos e as rochas exploradas como minério de ferro, por exemplo, o itabirito. A origem dos quartizitos é areia de um mar que outrora existiu na região, como comentado de maneira bem superficial aqui (Serra do Cipó I), e a origem dos minérios de ferro é algo como a lama de um mar mais calmo, ou seja, um material mais fino ou mais argiloso e mais rico em ferro, transportado por águas mais fracas que acumulou, concentrou ainda mais o ferro ao ter os outros elementos lavados para embora do sistema e virou rocha. Ambas rochas são de composição relativamente homogêneas, e pobres em elementos nutrientes, então mesmo os solos sendo relativamente jovens (rasos e formados mais recentemente pelas alterações das rochas) eles são bastante pobres em nutrientes (solos novos formados de rochas ricas são bastante ricos em nutrientes, tornando-se pobres e mais profundos com o tempo), o que não permite uma atividade biológica muito intensa, o que ajudaria ainda mais a “desmanchar” essas rochas ao longo do tempo, além do fato da própria natureza dos cimentos dessas rochas (substâncias que mantém unidas os minerais que as constituem) serem extremamente eficientes em conferirem maior resistência às mesmas (no quartizito silício cimentando sílica; e nos minérios de ferro o ferro cimentando o próprio ferro, com alguma participação também do silício cimentando o ferro).

Estas rochas que hoje ocupam os topos dessas paisagens são como os “ossos mais duros do tempo roer”, o que muito contribui para que as paisagens sejam das mais antigas, mesmo muito tempo depois do soerguimento do relevo pela tectônica de placas. Então, rochas do passado originaram solos que foram erodidos e acumulados nas baixadas da extinta paisagem, e esses materiais de solos deram origem a estas rochas atuais, que, com a ajuda do encontro dos continentes, hoje ocupam os topos da paisagem. Granitos aflorados na superfície tendem a terem formas arredondadas, mas os quartzitos tendem a serem pontiagudos exatamente por serem mais resistentes às interpéries..

Abaixo algumas plantas interessantes:












Observem que há plantas somente nas frestas:


Líquens interessantes:


Testemunha do fogo:


Paisagem:






Solo mais profundo (ainda apenas 10 cm) campo graminoso:



Solo ainda mais profundo, vegetação de Floresta Ombrófila Altimontana: