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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Cultivar híbridas de orquídeas é mais fácil do que cultivar as espécies de orquídeas?

A princípio sim, como há muito é conhecido na orquidofilia mesmo sem saber-se a base disto, que é o que denominamos de vigor híbrido ou heterose.

A hibridização de plantas e animais é um importante recurso do melhoramento genético que almeja aumentar o vigor da descendência em relação aos progenitores, entendo-se com este “aumento de vigor” melhoria em características como rusticidade, produtividade e precocidade.

Relaciona-se com rusticidade a capacidade de sobrevivência às mais variadas interferências ambientais, e trazendo aqui para o nosso interesse essas interferências ambientais seriam tipos de substratos, iluminação, temperatura, adubação, irrigação, cultivo em vasos ou em placas de madeira, dentre outras, que os orquidófilos podem controlar no orquidário. E com produtividade a capacidade de utilizarem dos recursos disponíveis a fim de produzirem biomassa, seja de raízes, de folhas, de pseudobulbos e de flores.

Os genes regulam as sínteses de proteínas que estão envolvidas nos processos de todas as funções orgânicas, e ocorrem aos pares e cada um que compõe este par é herdado de cada um dos pais, assim, se um “pai” transmite uma forma de gene e a “mãe” uma outra forma deste mesmo gene, os filhos serão heterozigotos para este gene, tendo então o indivíduo híbrido possivelmente a capacidade de produzir duas formas de uma mesma proteína (com a mesma função), que geralmente suplementam-se uma com a outra de maneira sinérgica.

A idéia é que a princípio os híbridos costumam ter um arcabouço genético que facilitam sua adaptação, ou plasticidade, no ambiente em que se desenvolvem, por terem mais tipos de genes em relação à cada uma de suas espécies progenitoras, sendo por isso capazes de responderem com rusticidade, produtividade e precocidade com os insumos que despendemos ou não a eles.


Em outras palavras, geneticamente as orquídeas híbridas apresentam melhores potenciais genéticos para compensarem nossas barberagens de cultivo.

terça-feira, 10 de março de 2009

Diferentes florações, diferentes flores.


"Oh amor poderoso, que faz de uma besta um homem, e de um homem uma besta" - conscientemente ou não, ou seja, por instinto (memória genética!!!) ou por aprendizado, temos a idéia que tudo na verdade é uma mera questão de "depende", na minha opinião no teatro de Shakespeare podemos identificar alguns bons exemplos de que equilíbrio de uma determinada coisa em relação às demais, e não necessária e unicamente a existência dela em um corpo ou em um contexto, é fundamental para acontecer uma dada resposta, várias ações e uma reação. Voltando ao post anterior, que traz a idéia de que as obras de arte se consagram justamente por serem elas harmoniosas e familiares aos sentidos. 

Consultando qualquer dicionário sobre o termo "equilíbrio" podemos ver que "proporção" sempre aparece, e o que consigo ver nessas palavras de Shakespeare citadas é, a interação entre os hormônios testosterona (força bruta, agressividade...), ocitocina e vasoprecina, salvo engano os dois últimos envolvidos com a sensação de prazer, sociabilidade, comportamento gentil... Deixo claro que reconheço que meu conhecimento sobre fisiologia animal é bastante vago, então, posso vir a passar vergonha diante de um médico fisiologista que eventualmente possa vir a ler este.

Na foto abaixo à esquerda, flores de uma Cattleya bicolor brasiliensis na floração de 2007, e na direita, a mesma, florida em 2009:













Chegou meio sofridinha, sem raízes, e em 2007 na primeira floração comigo saiu assim, mas notem a falta de simetria entre as anomalias nas flores anômalas... Espera-se que neste caso, anomalias de ordem genética sejam simétricas, ou seja, que as mesmas anomalias se repitam em ambas as pétalas e flores. Na foto abaixo vemos o "boom" de desenvolvimento que a planta teve, pseudobulbos mais velhos com menos de 30 cm de comprimento, e os dois mais novos com mais de 60 cm.


Agora, abaixo à esquerda, flor de uma Cattleya bicolor brasiliense, floração de 2008, com a flor expressando todo seu potencial genético em termos de armação de pétalas, apesar da planta também estar recém plantada, com poucas raízes, etc. E na foto à direita, a floração deste ano, 2009, com uma ligeira anomalia em uma das pétalas (também nenhuma simetria de anomalia):












As possíveis causas que desencadearam essas deformações nas flores são inúmeras, provável que no primeiro caso tenha havido uma interação entre estresses ambientais, dentre eles os relacionados a clima e fatores nutricionais, pois a planta também estava sem raízes e, portanto, sem conseguir absorver de maneira adequada água e nutrientes minerais, aí nos anos que se seguiram, com a planta já estabelecida, aclimatizada e enraizada as coisas mudaram. Mas no segundo caso imagino que o estresse tenha sido um só, um inseto, provavelmente um psilídio, que deu a "picada de prova" no botão da flor, o que causou desordens não só de ordem física mecânica, pois as células do botão da flor eram menores, e qualquer trauma por menor que seja, causa uma cicatriz que se amplia com o aumento do volume do tecido floral, e sabidamente insetos injetam toxinas com suas picadas, toxinas estas que causam desordens fisiológicas alterando a morfologia e até mesmo a cor dos órgãos afetados, justamente o que aconteceu, notem que parece que o sintoma de deformação e de coloração atípica tem um centro de origem, este possivelmente o local da picada.

Diante desses casos, comum aparecer alguém para dizer: "sua orquídea está com vírus", "joga ela fora"... Bom, o buraco é mais embaixo, lembre-se do equilíbrio entre as variáveis cuja maioria nem sequer conhecemos, e possivelmente compense esperar para ver se há repetição ao longo dos anos (princípio científico da VERIFICAÇÃO!), mesmo sendo, ou achando ser, exigente à qualidade.

 Embora seja sabido também que mesmos as picadas de prova dos insetos (a denominação técnica é realmente esta) que causam muitas injúrias e, inclusive podem transmitir vírus às plantas. Mas nesse caso aguardarei para ver ano que vem, afinal, não vejo nada demais de um aspirante à cientista ter um pouco de fé de vez em quando.

A principal mensagem que teria para passar neste post é que se adquiriu uma planta e logo na primeira floração ela não atendeu suas expectativas, paciência, ano que vem as coisas podem ser diferentes. 

 "O que seria mais importante, milhares de cavalos sem chifre, ou um cavalo com chifre dentre milhares sem???", não sei onde ouvi essa, mas achei legal a idéia que ela trás, digo porque determinados estímulos, combinados com o potencial genético dos indivíduos para responder a eles, ou ainda uma anomalia genética, intrínseca ao indivíduo, puxa vida que interessante, se quem estiver lendo este texto tiver uma planta dessas esquisitas e que eventualmente queira se desfazer dela, eu já adianto que eu aceito, especialmente se a anomalia for genética.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Orq 2

Após uma longa férias o Orquidofilia e Orquidologia está de volta, desta vez falando um pouco sobre genética das cores de flores de orquídeas.

"Orq 2" era o código no laboratório para o cruzamento entre uma Cattleya walkeriana variedade caerulea (que no latim quer dizer azulada) e uma Cattleya loddigesii variedade tipo (coloração de flor mais comum na espécie, neste caso magenta), em janeiro de 2002.

Respectivamente nas fotos da esquerda e da direita, embora não sejam exatamente das plantas que foram usadas neste cruzamento, correspondem às mesmas espécies e variedades. A Cattleya walkeriana caerulea fotografei no orquidário do Caliman em Venda Nova do Imigrante - ES, e a Cattleya loddigesii é uma planta minha.











O cruzamento entre estas duas espécies resulta no híbrido primário, também de ocorrência na natureza, quando as duas espécies ocupam um mesmo habitat, classificado como Cattleya x dolosa.

Fotos de duas irmãs neste cruzamento:











Assim como todas as outras deste cruzamento que tive oportunidade de ver florescerem, estas saíram da coloração "tipo" com tons semelhantes de magenta/lilás, embora o tamanho e forma das flores tenham diferido muito.

Com auto-fecundação de orquídeas caeruleas necessariamente as filhas terão que ser todas caeruleas, caso contrário pode ser papo de vendedor que vendeu gato por lebre, e no caso de auto-fecundação de plantas tipo, a possibilidade das filhas saírem todas com a cor tipo, mas existe também a possibilidade de no meio saírem algumas albas e outras caeruleas.

Fica fácil entender isso com uma noção da base genética responsável por isto.

Primeiro se faz necessário esclarecer alguns termos que serão utilizados:

-gene: é um fragmento de DNA, no qual está embutido determinada informação genética para uma característica, sendo então uma parte de toda informação química necessária para compor um ser vivo, como se fosse uma das frases escritas em um livro.

-gene recessivo: é uma das duas formas que o gene pode assumir, representado em letra minúscula, ele só manifesta a característica correspondente se combinado com outro gene também recessivo.

-gene dominante: representado em letra maiúscula, como o próprio nome diz, "domina", como se tivesse preferência para expressar uma característica no indivíduo portador do mesmo, "não importanto" (aí já é uma longa conversa...) se está combinado com um outro gene dominante ou recessivo.

Nos gêneros Cattleya e Laelia, sabe-se que as variações de colorido nas flores, para tipo (lilás/magenta), alba e caerulea estão relacionadas às diferentes combinações entre os genes "C", "R" e "A", que serão representados nesta ordem no decorrer do texto.

Para alba, as combinações possíveis correspondentes são: c c _ _ A _ ou _ _ r r A _, quando é dado o espaço sublinhado "_" significa que tanto faz a combinação, se o gene está na forma dominante ou recessiva, sempre mantendo a seqüência "C", "R" e "A".

No caso então para alba necessariamente, entre os genes "C" e "R" um deles deverá estar em par recessivo, e deverá haver ao menos um dos genes "A" na forma dominante.

Para caerulea, as combinações são c c _ _ a a ou _ _ r r a a, então no caso tem que haver as mesmas condições para a coloração alba com mais a peculiaridade dos genes "A" estar em par de recessivos, em outras palavras para ser caerulea tem que ter tudo que existe na alba e mais uma combinação específica, por isso que a variação caerulea é mais rara na natureza e deveria então ser mais valorizada, a probabilidade de se ter mais um evento favorável ( os genes "A" em par recessivos) é menor.

Então o "A" dominate inibe a produção dos pigmentos azuis nas flores das albas.

Para coloração tipo, C _ R _ A _, combinação bem mais fácil de ocorrer.

Existe uma série de modelos que explicam porque no caso do cruzamento identificado como Orq 2, entre uma caerulea e uma tipo, sairiam todas tipo, alguns exemplos:

1º ) A C. walkeriana caerulea era C c r r a a e a C. loddigesii tipo era C C R R A A.


Lembrando que 50 % dos genes de um indivíduo vem da mãe, e os outros 50 % dos genes vem dos pais, a "mãe" C. walkeriana caerulea tem a possibilidade de fornecer as combinações C r a e c r a, e a planta "pai", C. loddigesii tipo (que forneceu os gametas masculinos), neste caso com o potencial apenas de fornecer a combinação C R A.

Combinando as opções:

* clique na figura para ampliar.

Filhas 100 % de coloração tipo então.

2º) C c r r a a x C c R r A A.

* clique na figura para ampliar.

Teremos neste caso um potencial de 50 % das C. x dolosa saírem tipo e os outros 50 % saírem alba. Embora não se tenha visto alguma planta deste cruzamento sair alba, não significa que não tenha havido o potencial, uma vez que para se aplicar a rigor as probabilidades seria necessário que se tivesse uma quantidade muito grande de plantas florindo, pois este tipo de estatística com poucas observações é falha.

Quando eu me referi que seria "uma outra conversa" o que acompanha um gene dominante, pensei no seguinte:

A combinação C C parece ter alguma relação com coloração tipo mais clara, e a combinação R R parace ter relação com coloração tipo mais escura.

A combinação C c R r, por sua vez parece estar relacionada a coloração suave, ainda próximo à tipo.

C _ R _ a a, parece estar relacionada à caerulescens (tendência à azulada).

Se o cruzamento se tratasse de uma caerulea C c r r a a com uma tipo (magenta/lilás)/suave C c R r A a por exemplo, teríamos as seguintes probabilidades de ocorrência:

18,75 % caerulescens.

31,25 % caerulea.

6,25 % tipo/clara.

12,50 % tipo/suave.

31,25 % alba.

As informações aqui passadas foram extraídas parte do livro Orchid Biology: Perspectives and Reviews II, do Arditti, e parte da palestra "Herança de cores de flores de orquídeas do grupo Cattleya" do professor daqui do Departamentos de Solos da UFV, Roberto Ferreira de Novais, com larga experiência no assunto de cruzamentos de orquídeas.

A genética de cores de flores orquídeas é algo relativamente mais simples que a genética de forma de flores. Para a primeira, existe a tendência de ser características qualitativas, poucos genes envolvidos, para a segunda algo como genética quantitativa, muitos genes envolvidos, portanto de complexidade maior, e de maior dificuldade de se esboçar modelos explicativos para os resultados.

A seguir fotos de Cattleya x dolosa alba cruzada com uma Cattleya walkeriana caerulea, saindo então tipo:



E esta Cattleya x dolosa albescens (quase alba), encontrada por um amigo em um habitat de C. loddigesii, deixou a gente encafifado pois no lugar se quer foi encontrada alguma vez uma C. walkeriana tipo.