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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Visita técnica em produção comercial de Phalaenopsis

Eventualmente faço visitas técnicas em orquidários pelo país, mais recentemente fiz uma em uma produção de orquídeas, cujo foco principal é  a produção de Phalaenopsis em vasos. Em acordo com o proprietário coloco algumas das observações neste post, tal como fiz há alguns anos atrás neste outro post (http://mvlocatelli.blogspot.com.br/2008/02/visita-tcnica.html).
Sabendo do histórico de aquisição das mudas, do tipo de material genético e dos tratos das plantas fui dando uma olhada, e foi possível notar que alguns sintomas nas Phalaenopsis sugerem que elas vem passando por um moderado, e crônico, estresse hídrico.
Moderado porque apesar da falta d’água ter causado alguns prejuízos no desenvolvimento das plantas, aparentemente o mesmo não tem sido severo o suficiente para causar morte imediata das plantas, e crônico por ser algo que vem sido tolerado pelas plantas há bastante tempo, de modo a resultar em uma série e adaptações morfológicas que atualmente observamos nas plantas.
As Phalaenospsis são orquídeas epífitas monopodiais, ou seja, evoluíram para sobreviver sobre os galhos de árvores, muito embora, por serem monopodiais, não possuam as principais adaptações que permitem epifitismo em muitas espécies de orquídeas, que é a formação de estruturas de armazenamento de água denominadas de pseudobulbos, sendo assim, não acumulam grandes quantidades de água nos seus corpos, e aliado a isso suas folhas largas proporcionam uma grande área de perda de água. 
De modo geral elas ocorrem em galhos baixos das árvores em ambientes de pântanos na Ásia, ou seja, não acumulam água em si porque evoluíram em um ambiente pouco dessecante, com o ar saturado, ou próximo a ser saturado, de água o tempo todo, e as folhas largas são para captarem o máximo possível do mínimo de luz que penetra pelas copas dessas árvores. (Exemplo de habitat de Phal. aqui https://www.youtube.com/watch?v=9F4vTvvfnng).
No orquidário, dentre os sinais de adaptação que observamos para as condições secas se destacam a alta frequência de plantas com seus caules bifurcados, em ocorrência de uma provável morte das gemas apicais primárias devido à desidratação (Foto 1). Para algumas orquídeas monopodiais é comum a bifurcação, no entanto isto não é comum em híbridas de Phalaenopsis, que estão entre as plantas ornamentais mais cultivadas no mundo, e além disso, é tão pouco comum, ou saudável, que o caule principal seque e morra, até que a única parte viva da planta seja o caule adventício brotado na lateral.

Figura 1 - Exemplos de plantas de Phalaenopsis com caules adventícios brotados nos caules principais.
Outros sintomas que reforçam o diagnóstico são a presença de relativas poucas folhas por planta, em média 2 a 3 folhas, que, apesar de túrgidas, são de dimensões muito mais reduzidas e arredondadas (Figura 2) em relação às referências de outras Phalaenopsis compatíveis geneticamente, e da mesma idade, porém em melhores condições de desenvolvimento, e a emissão de muitas raízes exploratórias que saem do vaso em direção às tábuas das bancadas, buscando mais água (Figura 3a).

Figura 2 - Exemplos de plantas de Phalaenopsis com poucas  folhas arredondadas por plantas.
Figura 3 – Raízes das Phalaenopsis saindo do vaso em busca de ambientes mais úmidos (a); raízes de Dendrobium direcionadas para um único sentido, a touceira em cima da bancada (b), e; planta de Phalaenopsis em um vaso maior, com mais folhas e estas sendo de formato mais comprido.
No orquidário há algumas outras espécies de orquídeas que também podem contar muito sobre o cultivo e o ambiente, por exemplo, uma Dendrobium nobile amarrada em um toquinho de madeira, mas com todas as suas raízes crescendo em direção de uma touceira densa de Oncidium em cima da bancada (Figura 3b), o microclima em cima da touceira é bastante úmido em relação ao seu entorno.
Temos também algumas Phalaenopsis, mesmo material genético, cultivadas em substratos e recipientes diferentes, de modo que também nos conta muito sobre elas, como na figura 3c, que aparece uma dessas plantas em um recipiente em um vaso que cabe muito mais substrato que a média que vem sendo utilizada, e por isso, proporcionalmente seu volume interno demora mais para secar após regado, algo que se nota pela planta conservar mais folhas, não estar bifurcada, as folhas tenderem a serem mais compridas, e as raízes ainda não terem saído em busca de ambientes mais úmidos.
Temos também uma Cattleya schilleriana com um novo pseudobulbo relativamente bem desenvolvido para os padrões da espécie, no entanto, devido a folha ter começado a abrir abaixo da linha da bainha que está secando, conclui-se que o broto potencialmente seria maior, e que isto não aconteceu porque faltou a planta absorver e acumular água na quantidade certa para as suas células incharem (tecnicamente hipertrofiarem) (Figura 4). As raízes dessa planta estão sadias, então conseguem absorver toda a água que tem acesso, assim, faltou mesmo o acesso a quantidades maiores de água. Algo sobre regas em orquídeas foi já postado por mim aqui (http://mvlocatelli.blogspot.com.br/2007/05/regas-em-orqudeas.html) e aqui (http://mvlocatelli.blogspot.com.br/2007/05/regas-em-orqudeas-ii_17.html).

Figura 4Cattleya schilleriana demonstrando sinais de ligeiro estresse hídrico.

Apesar das regas diárias em que se submete as orquídeas deste orquidário, e de que essas regas são da melhor maneira possível, ou seja, por meio de mangueira vaso a vaso, o principal substrato utilizada para as Phalaenopsis, uma mistura de brita 0 (ou pedrisco de construção) e argila expandida quebrada, não tem sido bom para armazenar água suficiente para atender a demanda dessas plantas para um desenvolvimento mais vigoroso.
No caso da referida Cattleya schilleriana, a mesma está em um cachepo com substrato de pedaços de casca de peroba, em condições de maior ressecamento ainda, muito provavelmente para o caso das cattleyas este sistema de cultivo das Phal. seria mais satisfatório, sendo as cattleyas orquídeas simpodiais com pseudobulbos notoriamente bem desenvolvidos e eficientes para armazenarem água.
O orquidário é muito ensolarado e ventilado, razão pela que a velocidade de remoção de água do seu interior pode ser considerado alta.

Na figura 5 vemos alguns exemplos de Phal. sob uma outra situação de cultivo, com fornecimento e armazenamento de água próximos ao ideal.

Figura 5Phalaenopsis sem sinais aparentes de estresse hídrico.
Minhas recomendações técnicas para corrigir o problema ficaram para o proprietário, que me pagou pelo serviço, este post é para divulgar o  meu trabalho, e a importância de se ter um engenheiro agrônomo dando assistência em um orquidário comercial, tal como se tem em qualquer outro tipo de atividade agrícola séria.

Marcus V. Locatelli
Orquidófilo há 20 anos
Engenheiro agrônomo
Mestre em Solos e Nutrição de Plantas
Concluindo o Doutorado em Solos e Nutrição de Plantas
Cursando Especialização em Proteção de Plantas

terça-feira, 22 de julho de 2008

Curiosidades! - Orquídeas em hidroponia.


"...As leis da natureza estão aí para que as decifremos. A tarefa pode não ser fácil, mas, ao contrário da Rainha de Copas em Alice no País das Maravilhas, Ele não fica mudando as regras de um jogo que já começou ..." (Bulent Atalay em A Matemática e a Mona Lisa: a confluência da arte com a ciência). Adorei este livro justamente por transmitir mensagens deste tipo.

Mas com a nossa limitação humana, muitas vezes para irmos decifrando estas leis precisamos fazer experimentos que simplifiquem a realidade, tal como nesses casos, onde foram plantadas mudas de orquídeas utilizando-se de técnicas de hidroponia. Experimento conduzido por uma colega, eu fui mero "telespectador".











A hidroponia permite eliminar a interferência de poeiras e diversos substratos em estudos de nutrição de plantas. As plantas são fixadas em suportes, no caso, em placas de isopor ou em tampas dos potes plásticos e, nutridas com sais dissolvidos na água. As raízes não morrem porque existe uma bomba jogando ar constantemente na solução.

Há um tempo atrás, eu brigava muito nas listas de discussão contra aqueles que defendiam cegamente (cegamente em todo sentido da palavra!!!) a tal da adubação foliar, mas agora ando meio cansado disso, e contra dogmas não há argumentos. Não que não surta efeito, surte efeito porque os nutrientes de alguma forma chegam nas raízes.

Escrevi algo tem um certo tempo http://mvlocatelli.blogspot.com/2007/04/dicas-para-uma-adubao-mais-eficiente.html, e estou devendo outras matérias a respeito.

Na ocasião das fotos as Dendrobium nobile estavam sendo cultivadas há mais tempo que as outras espécies em hidroponia, por isso estão mais vigorosas em relação aos demais, reparem pseudobulbos mais velhos (as mudas vieram de keikes) tendo cerca de 5 cm de altura e os novos, surgidos durante o cultivo hidropônico com mais de 30 cm. Logicamente por motivos que conhecem, as Dendrobium não floresceram, mas sim, deram um monte de keikes.























Algumas pessoas criticam e questionam porque coloco minha assinatura em cima dos objetos principais das minhas fotos que publico, a razão é que quero manter estas fotos com o registro de minha autoria pois eu as utilizo em cursos e palestras que ministro eventualmente, e já me aconteceu de eu me deparar com fotos minhas pela net sem o devido registro de sua fonte, o que possivelmente pode me privar de contatos que me são de interesse, uma vez que a agronomia é minha profissão.

sábado, 19 de abril de 2008

Ácaros e bacteriose em Phalaenopsis

A bacteriose em Phalaenopsis, tem como agente causal mais citado na literatura (ao menos pelo que pude encontrar) a bactéria Pectobacterium carotovora, cujos sintomas de infecção mais comuns são podridão mole (enzimas pectinolíticas liberadas pela Pectobacterium carotovora no tecido interno da planta, mesófilo, degradam pectatos de Ca da lamela média que é o “cimento” que une uma célula vegetal a outra) em folhas e podridão mole em pseudobulbos, essa podridão também é chamada de anasarca (regiões encharcadas e de péssimo odor). Além deste agente, citam-se outras bactérias com o potencial de causarem doença em orquídeas no geral, tais como: Pseudomonas sp., Erwinia carotovora, Erwinia chrysanthemi e Acidovorax avenae patovar cattleyae, mas para que sejam devidamente identificadas faz-se necessário testes bioquímicos mais complexos.

Bacterioses em plantas não tem cura, por serem doenças sistêmicas. Assim, o melhor controle se dá pela prevenção. Existem alguns antibióticos de uso agrícola, mas absolutamente desaconselhados, pelo grande risco de contaminação humana e ambiental que seu uso traz consigo.

Sabe-se que ao contrário de alguns fungos, as bactérias não penetram ativamente no corpo da planta, pelo fato de não possuírem artefatos biquímicos tais como enzimas que quando liberadas na superfície de uma folha, por exemplo, degradariam a cutícula da mesma diminuindo assim a resistência mecânica à penetração outrora existente.

Assim, seu melhor controle se dá controlando os agentes que literalmente colocariam as bactérias para dentro do corpo da planta, os vetores, especialmente insetos e ácaros.

Agora aqui, vamos falar dos ácaros que são seres microscópicos, como se pode ver na foto abaixo (retirada de Wikipedia), um ácaro bastante comum em nossas residências, a escala no canto inferior direito na mesma, cerca de 2 cm equivalendo-se a 50 μm, aumento de cerca de 400 vezes, ou ainda, 1 cm na foto equivalendo–se a 0,0025 cm na realidade.

Os ácaros fitófagos alimentam-se do suco celular ao rasparem as células com seu aparelho bucal apropriado. Nisso, abrem feridas que servem de entrada para os vírus e bactérias.

Os ácaros do gênero Brevipalpus (família Tenuipalpidae), por exemplo, são importantes vetores de viroses na citricultura brasileira, demandando milhões de dólares anualmente para seu controle.

No caso do ácaro da leprose dos citros, Brevipalpus phoenix, aqui no nosso clima tropical, e sub-tropical, o aumento populacional se dá a partir dos meses de abril/maio, declinando-se novamente a partir de outubro/nomembro, ou seja, eles desenvolvem-se melhor em ambientes mais secos, e o aumento das chuvas de certa maneira os controlam.

As fotos abaixo apresentam sintomas de raspagem celular pelos ácaros (em baixo relevo) nas folhas de Phalaenopsis, e as pintas pretas e manchas amareladas (sem baixo relevo), sintomas de uma provável infecção bacteriana.




















Como medida de controle aos ácaros, citam-se as relacionadas aos tratos culturais, tais como evitar o acúmulo de poeira na superfície das folhas, o que serviria de proteção aos ácaros, e manter sempre o orquidário o mais arejado possível.

Em se tratando de controle químico, muito embora não haja no Brasil algum produto registrado para a cultura de orquídeas (novidade!), e longe de mim receitar um produto que não é registrado pelas autoridades competentes, me arriscando ter meu registro no CREA cassado antes mesmo de retirá-lo, mas sei que o pessoal tem usado acaricidas a base de fosforados, clorodifenilsulfona, dinitrofenol e clorados, ambos produtos perigosos que necessitam de EXTREMA CAUTELA quanto à aplicação, a partir do uso de equipamentos de proteção individuais (EPIs) por pessoas que efetivarão as pulverizações, bem como algum tempo, especificado na bula de cada um, a se evitar ter contato com as plantas e áreas pulverizadas.

Lembrando também que, ainda o principal vetor de doenças em plantas cultivadas é o bicho homem, por meio de práticas descuidadas como, ferimentos excessivos com ferramentas de corte bem como a utilização destas imediatamente de uma planta para outra, sem uma necessária desinfestação, água de irrigação de origem contaminada, além de irrigação de maneira pouco embasada (recomendo a leitura aqui e aqui), aquisição de mudas ou de qualquer outro produto empregado no cultivo de procedência duvidosa e, plantas em bancadas muito tumultuadas, plantas raspando em plantas, etc.

Enfim, o que se deve ter em mente é não deixar ferimentos nas plantas expostos por muito tempo, pulverizar um pouco canela em pó (que possui fenóis que no geral são substâncias microbicidas) bem como pincelar calda bordaleza (mistura de sulfato de cobre, carbonato de cálcio e água) ajuda a selar uma superfície aberta por um corte.

Abaixo, uma foto de uma Phalaenopsis comprovadamente condenada, as manchas douradas circulares são sintomas de virose (causada pelo CyMV - Cymbidium Mosaic Virus) e nas folhas à direita, é possível notar sintomas de anasarca.