quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Habitat e um pouco da ecologia da Hoffmannseggella crispata

A razão pela qual venho aqui escrever algumas palavras sobre esta espécie é porque tenho visto muitas informações equivocadas acerca dela. 

Também, por trabalhar como consultor para empresas do setor de mineração, especialmente nas linhas de bioprospecção, multiplicação in vitro e convencional, e reintrodução de plantas nativas resgatadas de áreas impactadas, é rotineiro observar muito espaço para melhorias no manejo desta e de muitas outras espécies impactadas com a atividade, então compartilho minha experiência e divulgo o meu trabalho.

A princípio a Hoffmannseggella crispata é uma orquídea endêmica de Minas Gerais, mais precisamente da região do Quadrilátero Ferrífero (Fig. 1), e de um trecho mineiro da Serra da Mantiqueira, compreendendo a Serra Negra e o Parque Nacional de Ibitipoca, ambos próximos à cidade de Juiz de Fora/MG (Neto et al., 2009; Neto et al., 2007), no entanto alguns relatos mencionam a espécie nos Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo.

De acordo com a lista da Flora Ameaçada de Minas Gerais está em perigo de extinção (categoria EN,  o que a grosso modo se traduz como "risco de extinção a médio prazo") (Fundação Biodversitas, 2016) e, pela lista do Centro Nacional de Conservação da Flora, está quase ameaçada (categoria NT) (CNFlora, 2016).

Muitos trabalhos citam a espécie como rupícola, tanto em campos rupestres quartzitos (Neto et al., 2009; Neto et al., 2007; Teixeira & Lemos Filho, 2013), quanto em campos rupestres ferruginosos (Teixeira & Lemos Filho, 2013). 

Quanto a isso é comum ver literaturas equivocadas mencionando a espécie como ocorrente em apenas um dos dois tipos de campos rupestres mencionados, tal como Bioma (2016) (que inclusive usa algumas fotos de minha autoria no livro) que em sua página 200 menciona para espécie apenas o ambiente "campo rupestre quartzítico" mas, prestando atenção, em sua página 201 há uma foto, de meia página, de um indivíduo de Hoff. crispata florido, tendo no segundo plano da foto fragmentos de canga, pois o mesmo se encontra naturalmente em um campo rupestre ferruginoso. Sob o ponto de vista prático este tipo de informação, limitada, pode gerar confusão para quem vai trabalhar com a reintrodução de exemplares resgatados desta espécie e, quer saber onde é o melhor ambiente para sua alocação. 

Acho conveniente apontar, ainda, um terceiro ambiente de ocorrência desta espécie, campos graminosos de altitude, onde ocorre como terrícola (planta de solo, ou de substratos relativamente mais espessos). Segundo o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (Santos et al., 2013) o Neossolo Litólico Hístico pode ter menos de 20 cm de profundidade antes do seu contato com a rocha, como no caso das fotos abaixo que tirei na Serra da Moeda, então, a espécie está ocorrendo em um solo bem definido.




Neste tipo de ambiente, campo graminoso de altitude sobre Neossolo Litólito, há uma vegetação composta principalmente de gramíneas nativas, com alguns arbustos esparsos, e as espécies bastante estresse tolerantes quanto ao déficit hídrico e à limitação nutricional que o solo muito raso, e pobre, proporciona. São plantas que crescem pouco e devagar, de modo que a orquídea consegue desenvolver sem ser demasiadamente abafada.

Se este ambiente equilibrado for alterado, por exemplo, com revolvimento e adubação, selecionará outras espécies, principalmente as competidoras, como ervas das famílias Malvaceae e Asteraceae, e gramíneas invasoras como capim-gordura (Melinus minutiflora) e capim-braquiária (Brachiaria decumbens), essas duas últimas espécies africanas e com pesadas restrições de uso pelos órgãos ambientais, dadas às suas características de exercerem dominância suprimindo a flora nativa do sistema, assunto controverso, ideia para futuro post no meu Edafopedos.

A meu ver, um exemplo de aplicação inadequada desta espécie em trabalhos de recuperação ambiental podemos ver em Rezende et al. (2013), que testou diferentes níveis de adubação e de profundidade de um substrato composto por fragmentos de canga. Os autores discutem que a baixa porcentagem de sobrevivência desta espécie é em decorrência de coletas, no entanto, independentemente disso, ao vermos na figura abaixo as ervas que se desenvolvem em profusão, já é plausível inferir subdesenvolvimento (brotos cada vez menores) até a morte dos indivíduos, em outras palavras, este tipo de planta não é deste tipo de ambiente, por razões que estão sendo apresentadas aqui nesta postagem.



Mas, na foto abaixo, temos um bom exemplo de uma reintrodução bem sucedida de exemplares da espécie, respeitando características do substrato que iniba o desenvolvimento de outro grupo de plantas que suprimiriam as Hoff. crispata do ambiente.


A Hoff. crispata, assim como outras Hoffmannseggellas, tem uma plasticidade morfológica muito grande em função do habitat, em uma escala micro, ou seja, num raio de 30 cm pode ter um indivíduo localizado em uma fresta mais profunda, com pseudobulbos delgados alcançando 20 cm de altura, e outro indivíduo sobre a rocha nua, com pseudobulbos arredondados alcançando cerca de 8 cm de altura.

Estando em uma variante de campo rupestre denominado de canga nodular, que como o nome diz consiste em nódulos concessionários, de diâmetro médio de 1 m, intercalados com frestas mais profundas, há muitos arbustos sombreando a Hoff. crispata, e é onde seu porte fica maior, pseudobulbos com até 30 cm de comprimento, delgados, e com uma folha bem plana (foto abaixo). Este tipo de ambiente, a cerca de 1200 m de altitude, dos que conheço é onde as populações da espécie são mais numerosas, no entanto, como tenho visto, é onde há uma menor incidência de indivíduos florescendo e menor incidência de plantas com frutos em desenvolvimento. Acredito que o sombreamento, que faz com que as plantas fiquem mais altas, é excessivo ao ponto de inibir o florescimento (ver ponto de compensação luminosa).

Indivíduos de Hoffmannseggella crispata em seu ambiente mais típico, campo rupestre ferruginoso - canga nodular, a 1200 m de altitude.

Quando em campos graminosos nativos, seus pseudobulbos ficam altos e finos também, no entanto, as folhas ficam mais inclinadas para captarem menos energia luminosa (já discutido em "Epidendrum, fotossíntese e saturação luminosa"). Neste ambiente, que geralmente está uma altitude de 1100 a 1400 m na Serra da Moeda, a quantidade observada de  indivíduos  geralmente é pequena.


Nos campos rupestres ferruginosos canga couraçada, bem como nas lajes de quartzito, os pseudobulbos ficam mais baixos e arredondados (eficiência volumétrica de conservação de água, já abordado em "Cattleya walkeriana Gardner (1843) - anatomia, morfologia, fisiologia, ecologia e cultivo") e as folhas mais inclinadas. As plantas, também, tendem a adquirirem coloração avermelhada devido ao maior acúmulo de antocianina, que é um pigmento (antioxidante) protetor da radiação demasiada (que é oxidante!).
Indivíduos de Hoffmannseggella crispata em canga couraçada na Serra da Moeda, 1550 m de altitude.
Indivíduos de Hoffmannseggella crispata em laje de quartzito na Serra de Ouro Branco: folhas inclinadas, pseudobulbos avermelhados e arredondados.
Os campos rupestres ferruginosos de canga couraçada estão associados a maiores altitudes, 1500 a 1600 m, e as Hoff. crispatas não são tão numerosas quanto na canga nodular. No entanto, creio que devido ao alto input energético, advindo da maior insolação, geralmente é onde encontramos uma maior porcentagem de indivíduos floridos, havendo, também,  sempre muitos frutos em desenvolvimento nas plantas.

Falando em frutos, o tempo de maturação dos mesmos (até que naturalmente se abrem) é maior do que um ano, sendo comum vermos indivíduos em flores ainda portarem os frutos advindos de polinizações de flores do ano passado (foto abaixo), investimento de recursos por parte das plantas que corrobora para uma alta porcentagem de germinação das sementes in vitro.


Tipicamente a floração vai de julho a outubro, sendo o pico em agosto/setembro. Tem um período de floração extenso, de maneira que tem aparecido híbridos naturais com outras espécies de Hoffmannseggellas que compartilham seu habitat.

A meu ver, a melhor maneira de se cultivar a Hoffmannseggella crispata é com vasos de plástico contendo brita 0 de construção (pedrisco) como substrato, sob uma tela de sombreamento de 35 %.


Algumas particularidades notórias da Hoffmannseggella crispata é a disposição compacta das suas flores no ápice do racimo floral, como que se projetando e se expondo melhor acima da vegetação adjacente, característica que não perde em cultivo, ou em qualquer dos tipos de ambientes citados.  Outra característica marcante, no entanto não em todos indivíduos da espécie, é a borda das folhas avermelhadas / arroxeadas. Estas duas características também são vistas na Hoffmannseggella milleri (futuro post!). 


 A espécie tem como sinônimos Cattleya crispata, Laelia crispata, Sophronitis crispata, Laelia flava, dentre outros, a razão de eu utilizar Hoffmannseggella crispata será assunto de um futuro post também.

Abaixo fotos de outras flores que compartilham o habitat e a época de floração com a Hoffmannseggela crispata: 


Referências citadas


Bioma Meio Ambiente Ltda. (2016). Sobre a flora das Reservas Particulares do Patrimônio Natural da Vale – Guia de espécies ameaçadas, raras e endêmicas registradas. Nova Lima/MG. CD-ROM. 411p.Centro Nacional de Conservação da Flora. Disponível em http://cncflora.jbrj.gov.br/portal/pt-br/profile/Hoffmannseggella%20crispata. Acesso em 23/08/2016.
Fundação Biodiversitas. 2016. Revisão das Listas das Espécies da Flora Ameaçadas de Extinção do Estado de Minas Gerais. Disponível em http://www.biodiversitas.org.br/listas-mg/consulta.asp. Acesso em 23/08/2016. 
Neto, L. M., Alves, R. J. V., Barros, F., & Forzza, R. C. (2007). Orchidaceae do Parque Estadual de Ibitipoca, MG, Brasil. Acta bot. bras21(3), 687-696.
Neto, L. M., Matozinhos, C. N., de Abreu, N. L., Valente, A. S. M., Antunes, K., de Souza, F. S., ... & Salimena, F. R. G. (2009). Flora vascular não-arbórea de uma floresta de grota na Serra da Mantiqueira, Zona da Mata de Minas Gerais, Brasil. Biota Neotropica9(4), 149. 
Rezende, L.A.L; Dias, L.E.; Assis, I.R. & Braga, R. (2013). Rehabilitation of ironstones outcrops degraded by iron minning activity in Minas Gerais State – Brazil. In: National Meeting of the American Society of Mining and Reclamation, Laramie, WY Reclamation Across Industries, June 1 – 6, 2013. R.I. Barnhisel (Ed.) Published by ASMR, 3134 Montavesta Rd., Lexington, KY 40502. p.287-294.
Santos, H.G. Dos; Jacomine, P.K.T.; Anjos,  L.H.C. Dos; Oliveira, V.A. De; Lumbreras, J.F.; Coelho, M.R.; Almeida, J.A. De; Cunha, T.J.F.; Oliveira, J.B. (2013). Sistema brasileiro de classificação de solos. 3.ed. rev. e ampl. Brasília: Embrapa. 353p.
Teixeira, W. A., & de Lemos Filho, J. P. (2013). A flórula rupestre do Pico de Itabirito, Minas Gerais, Brasil: lista das plantas vasculares. Boletim de Botânica31(2), 199-230.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Hadrolaelia pumila (Hook.) Chiron & V.P. Castro - Populações remanescentes no Quadrilátero Ferrífero, Minas Gerais

*Transcrevendo um texto que escrevi para o Boletim AOSP nº 15 (http://www.aosp.com.br/).
O Quadrilátero Ferrífero
Situado a centro-sudeste de Minas Gerais, possui uma área de aproximadamente 7.200 km2 (Figura 1).

Figura 1 - Localização geográfica do Quadrilátero Ferrífero a centro-sudoeste de Minas Gerais. (Adaptado de Geopark – Quadrilátero Ferrífero).
Ao norte é delimitado pela Serra do Curral, ao sul pela Serra de Ouro Branco, a leste pela Serra do Caraça e porção sul da Cordilheira do Espinhaço, e a oeste pela Serra da Moeda, de modo que seu território assemelha-se à figura que lhe dá o nome, que é completado pela sua geologia originalmente rica em ferro. Essas serras prolongam-se formando cristas rochosas que atingem altitudes de até 1600 m.
É uma área de tensão entre os biomas Mata Atlântica e Cerrado, sendo que em solos mais profundos em um relevo mais abaciado, ou grotas, e em altitudes que não ultrapassam os 1300 m, encontram-se os capões florestais, com fitofisionomias[1] e espécies vegetais típicas de Mata Atlântica, como jacarandá-da-bahia, perobeira, quaresmeira (arbórea) e braúna. Já em solos rasos, declivosos, pedregosos, tanto em cotas mais elevadas quanto mais baixas, encontram-se os campos graminosos, limpos ou sujos, nesses últimos ocorrem em maiores quantidades plantas arbustivas e arbóreas tortuosas, típicas de cerrado, como o pequizeiro, barbatimão, quaresmeiras arbustivas (“quaresminhas”) e os ipês (Figura 2).




[1] Tipos de vegetação mais específicos.




Figura 2 - Encosta da Serra da Moeda, paisagem típica do Quadrilátero Ferrífero, comuns neblinas e nítida compartimentalização da vegetação em função do terreno. Platô no primeiro plano a cerca de 1100 m de altitude, topo da serra a cerca de 1600.
O clima da região é do tipo subtropical de altitude, com verão chuvoso e inverno seco. A média da temperatura do ar no verão é de 21 ºC e no inverno 16 ºC, a precipitação pluvial anual soma cerca de 1250 mm, e a umidade relativa é sempre alta (maior do que 76 %, mesmo no inverno) (MESSIAS, 2011), o que combinado com a queda abrupta de temperatura a noite proporciona um intenso orvalhar diário.
A transição entre os dois biomas e a diversidade de ambientes conferem à região uma grande diversidade biológica, e elevada taxa de endemismo[1] entre as espécies de plantas e animais que ali ocorrem.
Economicamente o Quadrilátero Ferrífero responde por crucial importância ao Brasil, pois é líder mundial em extração de minerais metálicos, especialmente o ferro, atividade esta que encabeça o PIB nacional. No entanto, essa extração combinada à ocupação urbana, desmatamento para agropecuária extrativista, e turismo pouco criterioso vem resultando em intensa alteração da paisagem.

A Hadrolaelia pumila (Hook.) Chiron & V.P. Castro
A Hadrolaelia pumila (Hook.) Chiron & V.P. Castro (2002) (ou Laelia pumila, Sophronittis pumila, Cattleya pumila) (Figura 3) é uma orquídea tipicamente epífita, e sua ocorrência já foi reportada para os estados de Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais (BARBERO, 2007).
É uma espécie bastante vitimada pela destruição do seu habitat, e o fato de ocorrer em pequenas populações (poucos indivíduos por área) faz dela especialmente vulnerável pela ação de coleta predatória. Segundo a Lista Vermelha da Flora Ameaçada em Minas Gerais é categorizada como em perigo de extinção em um futuro próximo (classe EN) (BIODIVERSITAS, 2007).
A partir indivíduos em cultivo, BARBERO (2007) descreve morfologicamente a Hadrolaelia pumila da seguinte forma:




[1] Espécies que só existem no local.


Figura 3 - Exemplar típico de Hadrolaelia pumila em cultivo.
“Rizoma 1,0-1,3 cm compr. entre pseudobulbos; pseudobulbos delgados, 5,0-7,5 cm compr., homoblásticos. Folhas estreitamente elípticas ou lanceoladas, 9,5-14,5 cm compr., 2,1-3,7 cm larg., ápice agudo ou obtuso, base atenuada, nervura central proeminente. Inflorescência 1- 2-flora, pedúnculo ca. 3,8 cm compr., brácteas florais triangulares, ca. 0,5 cm compr. Flores brancas, róseas ou lilases, com labelo púrpura; pedicelo + ovário 4,7-5,6 cm compr.; sépalas lanceoladas ou oblongo-lanceoladas, ápice agudo, a dorsal 4,5-6,3 cm compr., 1,1-1,9 cm larg., as laterais 4,5-5,9 cm compr., 1,1-1,8 cm larg.; pétalas com âmbito elíptico, ligeiramente assimétricas, com pequena reentrância no 1/3 superior, 4, 9-6,0 cm compr., 2,0-3,7 cm larg., ápice agudo ou obtuso, mucronulado; labelo 3-lobado, unguiculado, com âmbito obovado, 4,7-5,7 cm compr., 3,6-5,0 cm larg., envolvendo o ginostêmio, unguículo 0,2-0,4 cm compr., adnado à base do ginostêmio, lobos laterais arredondados, margem ondulada; lobo central obovado, 0,9-1,2 cm compr., 1,8-2,8 cm larg., ápice fendido, fenda 0,1-0,4 cm de profundidade; ginostêmio curvo, 2,2-2,5 cm compr.”

Nota sobre a ecologia das populações de Hadrolaelia pumila do Quadrilátero Ferrífero
Acompanhando relatos de orquidófilos da região, bem como tendo acesso às informações de relatórios de muitos estudos ambientais, além de uma série de idas a campo em locais de acesso restrito, a espécie se comprovou muito difícil de ser encontrada.
Ao longo do ano de 2014 foram encontradas duas populações, em duas áreas distintas no município de Itabirito/MG (figuras 4 e 5), cada uma dessas populações possuindo um número bastante reduzido de indivíduos.
Figura 4 - Área 1 de ocorrência da Hadrolaelia pumila.

Figura 5 - Área 2 de ocorrência da Hadrolaelia pumila.
Chama a atenção o fato de que as touceiras encontradas tenderem a serem relativamente velhas, grandes, com muitos pseudobulbos, então touceiras novas e seedlings são mais raras de ocorrerem, o que permite inferir uma baixa taxa de germinação das sementes e de sobrevivência dos protocórmios[1], culminando em baixa capacidade de povoamento.
Quando a planta está bem estabelecida a frequência de pseudobulbos folhados é bem maior do que uma touceira caída no chão, ou aderida a uma árvore em decomposição (Figura 6).
É plausível creditar esta pequena quantidade de folhas, diante do total de pseudobulbos, à intensa translocação, ou reaproveitamento, de água e nutrientes como o nitrogênio, fósforo e potássio, outrora acumulados nas folhas mais velhas até que, por limitações recentes de acesso a esses recursos pela planta, ela os envia para as partes em crescimento, o que promove a exaustão e queda das folhas mais velhas.


[1] Termo derivado do grego que significa “primeiro caule”, é o estágio inicial da vida de uma orquídea recém germinada, e é uma fase bastante crítica, pois necessita de condições bastante específicas.

Figura 6 – Touceira de Hadrolaelia pumila aderida a uma árvore em decomposição, menos da metade dos pseudobulbos com folhas.
As plantas de Hadrolaelia pumila tendem a ocuparem posições medianas das árvores, tecnicamente o que seria do fuste alto[1] até copa interna[2], e a abundarem em árvores nas bordas da mata, ou a beira de riachos, onde a descontinuidade florestal permite uma maior entrada de luz (Figura 7). Também foram encontrados indivíduos em uma árvore em ambiente aberto, sob praticamente pleno Sol (Figura 8).
Quando ocorrem em ambiente mais sombreado as folhas tendem a serem mais compridas, disporem-se horizontalmente e planas, e os pseudobulbos são mais altos e de formato mais cilíndricos (Figura 9), ao passo que, quando em ambiente mais ensolarado, as folhas são mais curtas, inclinadas e acanoadas[3], e os pseudobulbos mais curtos e arredondados.



[1] Parte mais elevada do tronco, antes do começo da copa da árvore.
[2] Região dos galhos que formam a copa da árvore que fica mais próxima do tronco.
[3] Dobram-se ao meio no sentido de seu comprimento, assemelhando uma canoa.


Figura 7 - Local de ocorrência típica da Hadrolaelia pumila.

Figura 8 - Indivíduos em ambiente ensolarado.

Em mata mais fechada o microclima é mais úmido, portanto o ar menos dessecante, aliado ao fato de receberem menos luz a auxina[1] tem uma meia vida[2] maior, e por isso as células alongam-se mais, o que reflete em folhas e pseudobulbos mais alongados. Sob pleno sol a auxina é mais intensamente destruída, resultando em diminuição de sua atividade e, por conseguinte, em células e órgãos mais curtos.
As folhas menores em ambiente ensolarado reduz significativamente a perda de água por evapotranspiração[3], e as folhas mais inclinadas reduzem a captação de energia luminosa, potencialmente mais intensa do que os tecidos das folhas suportariam, também o pseudobulbo arredondado é mais eficiente (relação área superficial/volume interno) em acumular água do que os mais cilíndricos.
Na figura 9 está uma das touceiras monitoradas ao longo do último ano, quando encontrada a mesma possuía um fruto originado na floração de 2014, e seguiu sem novas brotações até janeiro de 2015, fato que chama a atenção é a extrema rapidez em que as gemas entumecem, os pseudobulbos se desenvolvem e as flores se abriram após isso, em fevereiro de 2015.



[1] Hormônio vegetal responsável pelo alongamento celular, é destruído por luz (fotodegradação).
[2] Tempo em que a quantidade inicial de um composto se reduz pela metade, e assim sucessivamente, até restar em quantidade pouco significativa. No caso da auxina sob luz o tempo de degradação é maior do que no escuro.
[3] Termo criado pela combinação de transpiração (água saindo do interior do corpo de um ser vivo para o meio externo) e evaporação (água já na superfície da folha que vai para a atmosfera).


Figura 9 – Touceira em 5/08/2014 (a); touceira em 14/01/2014 (b), e; touceira em 20/02/2015 (c).
Em março de 2015 dois novos frutos já se desenvolviam, e o fruto de 2014 se encontrava em estágios finais de maturação (Figura 10).
Figura 10 - Dois novos frutos no ano de 2015, e o fruto de 2015.
É plausível que as flores mais expostas sejam mais facilmente avistadas por agentes polinizadores, potencialmente abelhas e beija-flores, onde num primeiro momento se espera uma maior incidência de frutos, no entanto, nessas condições é, aparentemente, também mais avistada por insetos que delas se alimentam, de maneira que as touceiras em ambientes mais abertos não só não apresentavam vestígios de frutos formados em outras florações, como também na ocasião as flores estavam intensamente danificadas por insetos, e muitas delas já senescentes (Figura 11).
Figura 11 – Ausência de vestígios de frutos e algumas flores comidas e já senescentes (pendúculos amarelados).
Os capões florestais onde ocorrem as Hadrolaelia pumila correspondem a florestas subperinifolias[1], de maneira que preserva maior umidade no ambiente, mesmo ao longo dos meses mais secos, fato importante para que os incêndios anuais, extremamente severos, não ultrapassem os limites dos campos graminosos, na época acentuadamente secos.
Esses habitats orquídea estão sendo mantidos em sigilo e intactos por hora, mas a gama de adversidades possíveis é grande.

Referências citadas
BARBERO, A.P.P. 2007. Flora da Serra do Cipó (Minas Gerais, Brasil): Orchidaceae - Subtribo Laeliinae. São Paulo. 107p. (Dissertação de Mestrado).
BIODIVERSITAS. 2007. Revisão das Listas Vermelhas da Flora e da Fauna Ameaçadas de Extinção de Minas Gerais – Relatório Final, Volume 2. Belo Horizonte. 69p.
GEOPARK. 2015. Geopark – Quadrilátero Ferrífero, disponível em < http://www.geoparkquadrilatero.org/?pg=principal>, acessado em 28 de março de 2015.
MESSIAS, M.C.T.B. 2011. Fatores Ambientais Condicionantes da Diversidade Florística em Campos Rupestres Quartzíticos e Ferruginosos no Quadrilátero Ferrífero, Minas Gerais. Ouro Preto. 119p. (Tese de Doutorado).



[1] A maioria das espécies de árvores não perdem as folhas no outono/inverno.

domingo, 26 de abril de 2015

Habitat de Hoffmannseggella caulescens (Lindl.) H.G.Jones

Hoffmannseggella caulescens (Lindl.) H.G.Jones é uma espécie mineira, e consta na lista de espécies ameaçadas de extinção, categoria EN (Em perigo de extinção, a médio prazo). (http://cncflora.jbrj.gov.br/portal/pt-br/profile/Hoffmannseggella%20caulescens).

Das espécies que conheço de Hoffmannseggella esta é a que vive em um dos ambientes mais áridos, que é a canga couraçada sob pleno Sol, ou seja, combinando um ambiente extremamente dessecante com um substrato com capacidade de retenção de água nula, ou quase nula.

Para compensar a pobreza em água e nutrientes minerais do seu ambiente ela tem que os acumular nas folhas e nos pseudobulbos, ambos bastante suculentos, tais como os cactos. Outra semelhança com cactos é o metabolismo ácido das crassuláceas (MAC ou CAM), que permite trocas gasosas da fotossíntese de noite, quando os estômatos se abrem, de maneira que a perda de água é mínima em relação ao que seria no calor do dia. Além disso as folhas são bastante inclinadas, de modo que não se queimem (ou de modo que não ocorra a fotodegradação dos seus tecidos por uma radiação muito inrensa), algo já comentado aqui (http://mvlocatelli.blogspot.com.br/2008/05/epidendrum-fotossntese-e-saturao.html).

a) modelo de decomposição de intensidade luminosa em função do ângulo da folha; b) Hoffmansseggella caulescens, rupícola típica, com folhas acentuadamente inclinadas. (Desenho e foto de Marcus V. Locatelli).



Existem a canga couraçada e canga nodular. A primeira é formada por concreções ferruginosas contínuas recobrindo a superfície do terreno, com poucas, e no geral rasas, frestas onde podem se desenvolver arbustos. Já o segundo tipo caracteriza-se por apresentar uma maior fragmentação, permitindo uma vegetação arbustiva mais adensada.

Essas fotos foram tiradas em 20/4/2015, em área próxima de Belo Horizonte/MG, e aqui apresentamos algumas variedades raras da espécie, tais como caerulea, puntacta, concolor e orlata flamea, além de uma beleza cênica imensurável a partir de jardineiras naturais formadas por touceiras da espécie:




















quinta-feira, 17 de abril de 2014

Monografia de pragas e doenças em orquidários finalizada - link para baixá-la aqui

Oi pessoal, 

muito obrigado por terem me ajudado respondendo as questões do questionário sobre pragas e doenças nos seus orquidários (mencionado neste post http://mvlocatelli.blogspot.com.br/2013/12/pragas-e-doencas-de-orquideas.html).



As contribuição de vocês foram muito enriquecedoras, as mesmas possibilitaram a visualização de um desenrolar sem fim de cenários e informações variadas, no entanto, neste primeiro momento, me contive em atender as exigências do curso de especialização em proteção de plantas que acabo de concluir.

A partir do endereço de email que muitos deixaram no questionário já enviei a monografia concluída, no entanto, alguns desses emails voltaram, provavelmente por algum erro de digitação do endereço correto, para esses que não receberam, e para os demais que tenham interesse, deixo aqui o link (https://drive.google.com/file/d/0B5I6PzPZfhovWENwTzVzaWFnNkE/edit?usp=sharing) para que acessem a versão final da minha monografia intitulada: PRAGAS, DOENÇAS E SEUS CONTROLES NO CULTIVO DE ORQUÍDEAS – CULTIVO COMERCIAL E CULTIVO AMADOR.

É um texto rápido, com colocações simples e panorâmicas, mas é um norte, não havia algo do tipo para o Brasil.

Por exemplo, há somente uma doença de orquídeas que possui produtos defensivos registrados/permitidos pelo Ministério da Agricultura, o que de certa forma nos coloca desarmados, não de produtos para o uso, que como todo mundo sabe há muitas opções facilmente adquiridas por aí, mas pela limitação de informações quanto ao uso desses, em se tratando de doses, periodicidades e finalidades. Através de estudos deste tipo é que se começa a movimentação para se tapar esses buracos.

A disposição, 

Marcus