quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Arte, ciência, ecologia e orquidofilia

Antes, contextualizando: tenho observado ao longo de minha trajetória orquidófila uma grande heterogeneidade de pensamentos e de concepção sobre o cultivo de orquídeas. Concepções estas muito relacionadas com a concepção de mundo de cada indivíduo, acredito, portanto aqui orquídeas vem a ser tanto figuras ilustrativas quanto reais, de acordo com a conveniência.

 

Algumas manifestações artísticas do gênio humano perduram não só décadas mas também séculos, tais como as pinturas de da Vinci, Michelangelo e Rafael, músicas de Beethoven, Chopin, Mozart e Ravel, teatros de Shakespeare, e textos de Cervantes e Camões.

 

Ambas manifestações artísticas são harmoniosas aos sentidos dos apreciadores que, de maneira consciente ou não, reconhecem nelas algumas relações com as leis da natureza que regem o Universo.

 

Um bom exemplo de como a ciência se bem empregada pode gerar coisas que são não somente úteis, como também belas de serem vistas, é o polímata renascentista Leonardo da Vinci que estudando a anatomia dos olhos humanos, órgãos que lhe proporcionavam peculiar admiração (“os olhos são as janelas da alma”- da Vinci), e sendo impulsionado a buscar esclarecimentos também nos princípios da física ótica para entender melhor o funcionamento destes, o que proporcionou que não só desenvolvesse protótipos de alguns modelos de telescópios e microscópios que temos hoje em dia, como também, provavelmente, foi determinante para que o mesmo pintasse obras de arte com criteriosas combinações dos nuances de luminosidade dispersa ou incidente nos objetos que compunham os cenários, criando assim, obras de arte com componentes harmoniosamente dosados e agradáveis de serem vistos. Teria ele tido o dom pelas artes ajudado pelo uso de critérios interdisciplinares cientificamente embasados? Existe essa coisa de "dom" ou tudo é uma questão, consciente ou não, de preparo?

 

Gosto de pensar que Leonardo da Vinci não nasceu predestinado a ser o Leonardo da Vinci, o ambiente no qual viveu e ele o fizeram Leonardo da Vinci. Sua curiosidade nata e determinação em conseguir explicações, aliada às oportunidades, fizeram dele um gênio, tido como o primeiro cientista moderno cerca de 500 anos atrás. Suas pinturas talvez tenham sido válvulas de escape de seu vasto conhecimento contido em um órgão de certa forma limitado, seu cérebro humano, que precisava aliviar-se sob o risco de "explodir" no sentido de o deixar maluco, inquieto, sufocado... ("Gênio é 1 % inspiração e 99 % transpiração"- Thomas Edson).

 

A partir daí podemos já ir pensando na relação da ciência com o campo artístico, e porque não entender o cultivo de orquídeas como uma arte?

 

Aí a arte sendo sinônimo de tecnologia adequada, visando produzir coisas belas, com um conjunto harmonioso e agradável de ser visto.

 

Não quero dizer que para ser bom cultivador de orquídeas é necessário ter uma formação tida como formal de cientista, muito pelo contrário, em uma das extremidades dessa coisa, conheço alguns Doctors Scientiaes (não sei se escreve assim no plural), pomposos pelo título, diga-se, mas com cultivos de orquídeas no nível do "horrível”, geralmente presunçosos a maiores entendidos, e fazendo questão de transpassar essa idéia, e na outra extremidade, pessoas mais humildes, mas ricas em interesse e em vontade de aprender, de novo "humildes", usando de todo seu senso crítico ao observarem, concluírem e agirem a partir disso, resultando em plantas bem cultivadas.

 

Mas notem que, mesmo no segundo caso, o quanto mais próximo o conhecimento verdadeiro sobre a realidade (sinônimo de conhecimento científico) melhor o resultado final, ou mais belo o "quadro" (o vaso, o cachepô, a placa, a situação...). Mesmo desconhecendo os porquês, determinadas atitudes que consideram determinados detalhes são sempre mais eficientes e eficazes ao objetivo as quais destinam-se.

 

Evidente que uma formação acadêmica levada a sério torna os bons resultados mais fáceis de serem conseguidos, por aumentar a precisão de determinadas atitudes bem como encurtando o caminho para se chegar a um determinado ponto (Conhecimento empírico vs. Conhecimento científico).

 

Por que então não ter a ciência como algo de “poder divino” de prever o futuro?

 

Nesse caso entendendo o poder de prever o futuro como a capacidade de prever as conseqüências de nossas atitudes, tais como resultados de experimentos antes de serem montados, ou de cruzamentos de orquídeas antes das próprias matrizes a serem utilizadas terem sido germinadas.

 

Afinal não estaríamos utilizando nada mais que a principal vantagem evolutiva que a natureza nos deu, que é capacidade de buscar ser racional na plenitude de nossas ações. Enquanto outros animais contam com tamanho, força bruta, garras, dentes e/ou velocidade.

 

Quem lê este texto agora, pertence a um seleto grupo da população mundial com acesso a ferramenta mais poderosa de busca de conhecimento que o mundo já viu que a Internet, então o que seria menos possível já aconteceu.

 

Naturalmente, eu começando novo nesse negócio de orquidofilia, aos 12 anos de idade, tinha como referência os mais velhos no ramo, dos quais muitas coisas aproveitei, é verdade, mas sem nada que se destacasse muito. Constantemente recebia conselhos do tipo “isso não vai dar certo, não adianta”, “esta planta não vai bem aqui”... Diante das explicações dos porquês, com respostas tão vagas quanto “porque não oras”.

 

Com o tempo a coisa de “andar em círculos” e de também olhar para os lados e ver que isso era regra foi me deixando incomodado. Embora em reduzidas proporções diante do tão vasto universo, meu primeiro grande “boom” de conhecimento sobre orquídeas foi durante o curso de agronomia, e o segundo durante o mestrado em Solos e Nutrição de Plantas (de agricultura de uma maneira geral).

 

Confesso que constantemente me deparo com surpresas, situações do tipo que penso: "caramba, isso não era para estar assim". E essas situações considero as mais interessantes, porque são as que mais ensinam, ao procurar estudar o caso e correlacionar mais e melhor as inúmeras variações das muitas variáveis que interferem no planejamento e cultivo de orquídeas.

 

Grande paradoxo, nesse caso existe aqueles que têm a posição abalada diante de um "não sei", mas também existem aqueles que vibram diante de uma nova situação cuja conseqüência a princípio tende ao infinito.

 

É humano subdividir um conjunto em partes mais simples para que a base seja entendida, mas é humano também não juntar de novo as partes para olhar de maneira diferente o conjunto.

 

Separa-se a matemática da física, a física da química, a química da biologia, por exemplo, quando na verdade a química explica a biologia, que por sua vez é explicada pela física e esta, é deduzida com a matemática...

 

A meu ver o que falta para o avanço científico é compreender as interfaces entre as mais variadas áreas do conhecimento humano, e só a partir disso teremos atitudes mais sustentáveis.

 

Por exemplo, o ramo científico de Recuperação de Áreas Degradadas só veio a surgir com os impactos ambientais decorrentes de ações que não eram devidamente entendidas no tocante de suas interfaces, suas inúmeras componentes e conseqüências potenciais.

 

Tenho especial interesse por ecologia, ecologia no sentido científico, não apenas com o significado de "reciclar garrafas pets" que a mídia dissemina.

 

Ecologia talvez seja a ciência mais complexa, inclusive penso a agronomia (agronomia de ponta) como uma ecologia aplicada, por exemplo, integrando conhecimentos de biologia de plantas (genética, anatomia, morfologia, taxonomia, fisiologia...), com conhecimento de biologia de solo, de pragas e doenças, com o conhecimento dos componentes não vivos do sistema, como clima, componentes minerais do solo, maquinário utilizado... Tudo que se colhe é nada mais que o resultado das complexas interações, evidentemente e provavelmente a maioria delas ainda não bem compreendidas.

 

Por exemplo, o número de plantas de milho ao longo de uma linha de semeadura e a distância entre uma linha com a outra, consequentemente o número de plantas desejáveis por hectare, relaciona-se com a morfologia (agronomicamete usa-se o termo arquitetura) da planta de milho, pois existe a idéia de colocar o máximo possível de plantas por unidade de área ao ponto de comprometer o mínimo possível a diminuição de fotossíntese pelas plantas com as folhas cada vez mais sobrepostas e protegidas dos raios solares. Também no que se refere à produtividade, é um desperdício adubar esperando uma produtividade de 10.000 kg/ha se o potencial genético do milho semeado é mais baixo que isso, ou ainda se há previsão de estiagem durante o ciclo, ou se está em uma estação do ano quando não há temperatura e insolação suficientes...

 

Ao longo de outros posts neste blog, como este aqui, vou tentando correlacionar certas coisas a fim de aguçar o interesse dos leitores.

 

Assim, a meu ver um bom cultivo de orquídeas é uma manifestação artística, consciente ou não, de ecologia aplicada. 

 

"O Universo não foi feito à medida do ser humano, mas tampouco lhe é adverso: é-lhe indiferente" (Carl Sagan).

7 comentários:

Elton Luiz Valente disse...

Belo texto, meu Compadre!

Já dizia o grande Aristóteles, "o todo é muito maior do que a simples soma de suas partes."

Peço, humildemente, que Vossa Excelência não use minhas pobres orquídeas abandonadas e maltratadas como exemplo (mal exemplo), é tudo culpa da pós-graduação e da falta de espaço nas moradias estudantis de Viçosa. Um dia terei um orquidário que faça juz a esse nome, bem como à titulação do dono!

Parabéns pelo texto!

Elton Luiz Valente disse...

Errata!

Onde se lê "Juz", leia-se "Jus"!

Obrigado!

Marcus V. Locatelli disse...

Muito obrigado compadre.

O texto na verdade é fruto de boas conversas como as nossas que amadurecem algumas leituras.

Não se preocupe, seu perfil está longe dos D.Sc. que citei. Vossa senhoria é um bom exemplo de D.Sc. competente que sabe usar bem seu embasamento.

Abraços, e obrigado pela visita.

Ítalo M. R. Guedes disse...

Locatelli,
Excelente texto!! Muito bom mesmo, você estava inspirado e pos tudo para fora, hein? Concordo plenamente, a academia está cheia de doutores e mestres incompetentes, vêem no título apenas um meio mais eficiente para arranjar um emprego estável e um salário razoável. Fazer um doutorado em busca de conhecimento é quase visto como bobagem ou dissimulação. Orquidólogo e filósofo, hein?
Grande abraço.

maria tereza disse...

Prof DR

O Hoehne esta morrendo de inveja na tumba.

estas se superando..........

José de Assis disse...

Marcus,
Que ótima mensagem!

Que tal usar seus conhecimentos de Profº e Dr para ajudar a censibilizar a todos da real necessidade de fazer sua parte ecológica? Usar conhecimento de Agrônomo e conservação de solos para ajudar a proteger as matas.Parabéns pelo novo título!Abçss...

José de Assis disse...

Errata...

Sensibilizar, desculpe!