quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Olhando uma orquídea e vendo o que ela nos diz sobre ela

Por aí é muito comum ouvir "Ganhei uma orquídea, e agora eu planto ela como?", sempre dá vontade de responder "uai, não sei", mas acabo indo no caminho do "depende, como ela é?". O "não sei" seria sincero também, pois o como plantar dependeria de muita coisa, dependeria de qual orquídea é, especialmente de como ela brota e se ela é epífita, terrícola ou rupícola.

Recentemente quando dou algum curso ou palestra por aí sobre "cultivo de orquídeas" sempre começo mostrando por uns 5 minutos várias fotos de várias espécies em vários contextos de fundo diferentes, e digo "olhem aí a diversidade, não tem como haver uma receita de plantio que atenda todas", e complemento que a ideia do curso ou palestra é fornecer um mínimo de base para que eles mesmo avaliem a situação, e concluam como plantar. Avaliação esta especialmente a partir de se olhar uma planta direito, e sentir as folhas, raízes e pseudobulbos com as mãos, então a princípio o que seria nada muito prático e muito chato e teórico ensina a sentir cada planta com as próprias mãos e a ver o que ela nos diz sobre ela, e fica o paradoxo no sentido de não haver nada mais prático que isso no final das contas.

Mas ainda assim tem gente que reclama que queria um curso mais prático, outros nem piscam, de tanto que prestam atenção, então já que não dá mesmo para agradar todo mundo sigo do meu jeito.

Apresento aqui embaixo um pouco da palestra de cultivo de orquídeas.

O sistema de ramificação de uma espécie de orquídea é uma das características que mais interferem diretamente na sua forma de cultivo. A maioria das espécies em cultivo no Brasil são simpodiais (Cattleya, Oncidium, Maxillaria, etc.), porém, outras bastante representativas são monopodiais (Vanda, Phalaenopsis, etc).
As simpodiais caracterizam-se pelas brotações (novos pseudobulbos) originarem-se nas gemas laterais presentes na base de cada pseudobulbo. Nas monopodiais não existem pseudobulbos, e as brotações surgem como folhas novas no ápice do caule aéreo.


Os pseudobulbos das simpodiais foram as principais adaptações estruturais que permitiram as espécies de orquídeas serem epífitas, são diversos formatos e dimensões, cada um servindo como um recipiente de água diferente, alguns como galões grandes com uma abertura para saída de água (~folha) pequena, assim capazes de armazenarem água por mais tempo, outros como pequenos copos com uma torneira (~folha de novo) grande, de modo que se não fosse o ambiente constantemente úmido ela secaria muito rápido, e entre um extremo e outro infinitos intermediários.


As orquídeas monopodiais possuem um caule aéreo, que é muito fibroso e que não serve como os pseudobulbos para o armazenamento de água, então na natureza necessariamente elas ocorrem em habitats mais úmidos, se forem epífitas ocorrerão necessariamente na base do tronco da árvore, mais próximas do chão, onde é mais úmido em relação ao topo da árvore, então no cultivo demandarão também microclimas mais úmidos.

Agora separando as orquídeas quanto aos seus habitats, se a orquídea for epífita sua ocorrência e necessariamente sua necessidade de cultivo vai depender de qual tipo de epífita é, se tem pseudobulbos avantajados e suculentos, e folhas pequenas e duras (olha a serventia da mão apalpando aí de novo), o que nos diz que ela evoluiu para epifitar o alto de árvores em matas mais secas para pegar mais luz e compensam não precisando de tanta água, ou o oposto, se ela tem folhas grandes e moles e pseudobulbos finos, fazendo com que não tolere microclimas muito dessecantes:









Então, no caso da Cattleya nobilior acima a esquerda inferimos que evoluiu para receber mais luz (mata mais aberta ou mais no alto da árvore), e menos água (muita reserva, evitar substratos que acumulem muita água), ao contrário da Pleurothallis sp. na foto acima a direita, ocorrendo como uma epífita próxima ao chão em uma mata que é mais fechada (mais sombra) e úmida o tempo todo.

O que principalmente difere uma orquídea epífita típica de uma terrícola típica é a combinação de pseudobulbos e velame nas raízes, ambos mais desenvolvidos para o primeiro habitat, repare no destaque em "típicas" porque há algumas excessões que precisam serem explicadas analisando outras variáveis, aí dariam outros posts.

O velame é uma ou mais camadas de células mortas acumuladas ao redor das raízes que funciona como uma esponja, retendo água e nutrientes que escorreriam rapidamente pela superfície em que as plantas encontram-se fixadas, além de servir para proteger as raízes do ressecamento completo em razão delas estarem em contato direto com o ar. 


O slide abaixo mostra esquemas de cortes feitos em raízes de várias espécies de orquídeas, tanto terrícolas típicas e epífitas típicas. Reparem que o velame (camada mais externa e rachurada) é mais espesso nas epífitas no quadro a direita do slide do que nas terrícolas, a esquerda, mesmo havendo grande variação de espessura de velame dentre cada um desses dois grandes grupos, o que pode ser explicado pelo fato de que orquídeas epífitas de matas mais secas ou mais no topo das árvores tem o velame mais espesso do que epífitas de tipos de matas mais úmidas ou que ocorrem mais abaixo, o mesmo para as terrícolas, onde o velame é mais espesso para aquelas que ocorrem em solos ou outros substratos mais secos. A espessura do velame e a proporção dele em relação ao diâmetro todo da raiz a gente sente pegando com a mão e também percebe olhando para ele.


Aqui no slide de baixo uma curiosidade, as epífitas tem mais vascularização por diâmetro das raízes em relação às terrícolas, o que serve para absorver mais rápido o que a esponja (velame) está segurando do lado de fora da raiz:


A partir do exposto sobre as raízes é plausível pensar que na mesma intensidade em que o velame bem desenvolvido confere vantagens para o desenvolvimento das raízes em um ambiente relativamente mais árido, confere também relativa baixa tolerância para as raízes em ambientes constantemente encharcados, vindo a ser essencial dispor de substratos e recipientes que promovam boa drenagem e bom arejamento para aquelas espécies com raízes de velame bem desenvolvido.

Tive um professor em uma disciplina de melhoramento animal ainda na agronomia que dizia "bicho de dupla aptidão não serve para nenhuma das duas direito, para boi ou é leite ou carne, para galinha é ovo ou carne", galinha caipira não produz tanto ovo ou tanta carne como as poedeiras ou os frangos melhorados de granja, ficam no meio, mas são mais vigorosas, e é assim para plantas também, se elas são altamente especializadas em uma determinada condição de estresse não adianta dar mais conforto que ela não vai agradecer produzindo mais, vai entrar em parafuso... Algo comentado aqui já neste post sobre cultivo de orquídeas híbridas vs. cultivo de orquídeas espécies (http://mvlocatelli.blogspot.com/2009/12/cultivar-hibridos-de-orquideas-e-mais.html).

Falando um pouco das terrícolas agora, que como nas epífitas existem muitas particularidades, por exemplo, este slide abaixo uma imagem do Google Earth de um trecho da Serra de Ouro Branco, em Ouro Branco/MG, notem as sinalizações "Cyrtopodium" em cima de uma mancha de solo branco, com a vegetação mais rala porque é areia seca boa parte do ano, e estressante em termos hídricos e nutricionais para muitas plantas, e mesmo para aquelas que conseguem sobreviver nesta condição não conseguem adquirir vigor o suficiente para cobrir a superfície toda do solo, e, finalmente, a poucos metros uma outra seta indicando "Pelexia", e notem ao redor dela, sem solo exposto, uma vegetação densa revestindo o solo todo.


Olhando de perto agora, Cyrtopodium sp. terrícola, com pseudobulbo bem redondinho, e o que não estão vendo aí nesta foto mas que conhece Cyrtopodium sabe que as folhas caem e a planta passa boa parte do ano sem folhas para resistir melhor à seca, e que as raízes são bem branquinhas por causa do velame:


Agora a Pelexia sp.em uma baixada que fica alagada o ano todo, as gramíneas fechando o solo, ela com folhas permanentes e largas (também porque tem bastante água que pode perder pelas folhas a vontade), e também praticamente não tem velame e um pseudobulbo "clássico":


Então para uma terrícola de solo seco uma combinação de vaso e substrato mais drenado, com maior proporção de areia para proporcionar mais poros grandes, e para aquela terrícola de brejo um vaso com substrato com mais húmus ou argila, para reter mais água.

Abaixo mais dois extremos de terícolas, Cyrtopodium sp. em solo muito pedregoso e pobre em nutrientes no Parque Nacional da Serra do Cipó, aqui temos perda de folhas todo ano e pseudobulbos com bastante reserva, e uma Habenária sp. em uma floresta de altitude nos arredores do Pico da Bandeira, vegetando dentro de uma nascente de água, num solo mais fino e mais fértil.






Abaixo um exemplo de uma excessão que mencionei acima, uma terrícola típica que mesmo não possuindo adaptações para ser epífita está ocorrendo nesta situação, mas aqui no caso esta planta ppode ser classificada como holoepífita acidental, teve sorte arranjar um "vaso" formado por um buraco que  está acumulando sedimentos no tronco de uma árvore que caiu e em meio a uma floresta constantemente úmida.



2 comentários:

Anônimo disse...

Marcus
Sua participação e ajuda a nós, pobre mortaris daz orquidofilia é enorme
Parabéns
abraços
M Rita

Roberto Andrade disse...

Marcus. Vc fala de AIB e AIA como Acido Indol Butirico. O q é mesmo o AIA?