segunda-feira, 27 de abril de 2009

Um pouco de estatística experimental na orquidofilia

Penso que orquidófilos são curiosos sobre a natureza, e que no fundo usam as orquídeas apenas como pretexto para direcionar algo como um sentimento investigador e aventureiro que é bem característico.

 

Orquidófilo que nunca fez suas próprias experiências é um imitador de outro orquidófilo.

 

Existe um tipo de referencial do que está bom, e quando algo não está existe uma demanda em se buscar melhorar algo, e é gerado um tipo de perturbação que quebra a “harmonia do sistema”, fazendo com que as coisas saiam da monotonia e vão para o interessante ou o desafiador.

 

Já teve a oportunidade de mostrar uma orquídea doente para um fitopatologista?

 

Quando tiver e a orquídea for sua procure manter a calma diante da alegria dele em ver aquilo...

 

Esses desafios interessantes seria como descobrir o lugar ideal para aquela espécie de orquídea, isso envolvendo luminosidade, ventilação e “oportunidades” para esta.

 

“Oportunidades” porque é muito comum, por exemplo, quando se tem muitas plantas em um espaço reduzido e que devido às obrigações do dia a dia se faz obrigatório que as regas sejam automatizadas ou que sejam efetivadas por meio de outras pessoas, pessoas essas que normalmente não teriam aquela mesma atenção e capricho que você. Algumas plantas estando em lugares mais escondidos, que não recebem água, enquanto que as mais expostas recebem muitas vezes água em demasia. Assim nada adiantaria ter a espécie certa com adequados substrato, vaso, adubação, luminosidade e ventilação, se falta algo essencial: “O controle de irrigação”.

 

Diante de uma planta perecendo de acordo com as percepções dos orquidófilos as conclusões podem ser inúmeras, inclusive conclusões exatas, como que é problema por falta ou excesso de água no caso acima, mas pelo que tenho visto são tempestades em copos d’água, para o primeiro exemplo ainda, conclusões equivocadas possíveis seriam canela seca (fusariose), planta “chata” de se cultivar, planta que não estaria bem adaptada ao maior sombreamento ou a maior insolação, o substrato não estaria bom para ela e tão pouco o tipo de vaso...

 

Muito falta a meu ver um tipo de sistematização de observação de fatos e formulação de idéias para se conseguir conclusões exatas, ou ao menos satisfatórias, para que a partir disso se corrija ou previna os problemas. E é exatamente onde entra a importância do pensamento científico, tendo a estatística como importante ferramenta para isto.

 

Muito se engana aquele que pensa que a estatística se restringe apenas às estimativas de probabilidades, ou aos cálculos de estatística descritiva (como os para obtenção de média, desvio padrão e coeficiente de variação) ou a testes e contrastes de comparações de médias, pois estatística é também uma ferramenta de pensar ou planejar. Tem uma frase famosa de R. A. Fisher, o pai da estatística experimental, que diz o seguinte: “se chamam um estatístico somente no final do experimento, muitas vezes o que ele pode dar é a autópsia da pesquisa”.

 

O modo estatístico de se pensar foi importante para Charles Darwin fazer suas pesquisas de tantas interdisciplinaridades, tendo este inclusive dado importantes contribuições para a evolução desta ciência, por exemplo, contribuições importantes na construção dos conceitos de desvio padrão e intervalo de confiança da média, por exemplo.

 

Uma razoável definição do que seria experimentação científica pode ser encontrada neste link que vai para o Wikipedia, mas já adianto e transcrevo aqui:

 

“No método científico (mais especificamente no método experimental), umaexperiência científica consiste na montagem de uma estratégia concreta a partir da qual se organizam diversas ações observáveis direta ou indiretamente, de forma a provar a plausibilidade ou falsidade de uma dada hipótese ou de forma a estabelecer relações de causa/efeito entre fenômenos. A experiência científica é uma das pedras angulares da abordagem empirista ao conhecimento humano.”

 

Notem a idéia de se ter critérios plausíveis para se concluir e agir a partir de circunstâncias.

 

Uma experiência consiste em aplicação de diferentes tratamentos a fim de se comprovar uma hipótese, por exemplo, o adubo A é melhor do que o B para as orquídeas. A idéia neste caso é ter referenciais de comparações, adubo A com o B.

 

Os três princípios básicos da experimentação são: repetição, casualização e controle local.

 

A repetição consiste na verificação de uma eventual tendência por meio de um maior número de amostras analisadas, não existindo um número de repetições pré-fixados para cada caso, valendo muito a experiência do condutor do experimento para tanto. Geralmente quanto maior o número de repetição maior a precisão do experimento.

 

A casualização é a aplicação dos tratamentos para de maneira o menos tendenciosa possível, casual propriamente dita, muitas vezes por sorteio, de modo que se evite induzir determinados resultados.

 

O controle local tem a finalidade de subdividir uma condição heterogênea para uma mais homogênea.

 

Vamos ao exemplo, a idéia de se testar dois tipos de adubos em um orquidário com muitas espécies diferentes.

 

Os resultados da aplicação do teste em apenas dois vasos de orquídeas não são confiáveis. Independentemente de serem os dois vasos de espécies iguais ou diferentes. Ideal seria aplicarmos o experimento nas 1.000 outras plantas, de modo a termos resultados mais seguros, este é o princípio da repetição.

 

Agora, depois de decidido aplicar os tratamentos de diferentes adubos nas 1.000 plantas vem a questão de quais receberiam determinado tratamento, pois normalmente se tem um número variável de exemplares de cada espécie na coleção: 1 Cattleya elongata, 20 Cattleya labiata, 50 Cattleya walkeriana, 15 Catasetum fimbriatum, 3 Cycnocheshaagi, 4 Acianthera teres, e assim por diante - uma razoável diversidade em um mesmo orquidário. Sorteio seria uma boa opção, pois a princípio todas possuem as mesmas chances de serem submetidas a um determinado adubo, A ou B. Este é o princípio da casualização.

 

Resultados mais confiáveis teríamos se tivéssemos uma padronização de nossas parcelas ou unidades experimentais (os vasos), por exemplo, se temos 20C. labiata, 10 receberiam o adubo A e 10 o adubo B, 25 C. walkerianas com o adubo A e 25 com o adubo B, e assim por diante. Da mesma forma, melhor seria se os vasos estivessem sob semelhantes condições de tipo material que foi feito o vaso, de substrato, de rega, de modo de adubação, luminosidade... Este é o princípio do controle local.

 

Sei que não é o caso da maioria a preocupação em obter dados para escreverem artigos, eu mesmo acho os experimentos muitos chatos, mesmo embora necessários, prefiro os estudos de casos, mas não por isso que não seja importante a idéia de sistematização de uma observação.

 

A idéia que quis passar aqui é que é interessante se preocupar com a origem dos resultados e das conclusões para se garantir o máximo de confiabilidade dessas.

Um comentário:

maria tereza disse...

já não daria pra fazer um "livro de receitas orquidófilas", meu amigo

valeu o boi